Voltando às revisões

por Vítor Menezes em 07/10/2016
Há algumas semanas postei um artigo apresentando uma crítica ao método das revisões baseado na curva do esquecimento [1].  Este método basicamente prega revisões em períodos programados, tais como: 24 horas, 7 dias, 30 dias, 60 dias.
 
As críticas foram basicamente duas:
  • a curva do esquecimento foi montada a partir de um experimento em que se sorteavam sequências de sílabas sem sentido, que deveriam ser gravadas; ou seja, não espelha a perda de informação que foi compreendida, mas simplesmente decorada. Isso não bate exatamente com o estudo para concurso;
  • sua inviabilidade prática: levar 20 matérias em paralelo, tendo que revisar cada aula com 24 horas, 7 dias, 30 dias, etc, é inviável
 
Diante do artigo as perguntas mais recorrentes que eu recebi foram essas: Vítor, como você revisa? Como montar uma planilha das revisões?
 
Eu tive que quebrar a cabeça para chegar a uma resposta, pois nunca tive um método propriamente dito. Nunca tive um conjunto de passos pré-definidos que seriam seguidos a ferro e fogo; eu simplesmente estudava. Para chegar a uma resposta, o que fiz foi olhar em retrospectiva para pinçar os elementos mais ou menos estáveis durante minha preparação, e que considerei relevantes. E respondi naquele próprio artigo.
 
Mas as pessoas continuaram me escrevendo, meio que esperando um passo a passo completamente detalhado.
 
Óbvio que eu posso dar um exemplo bem detalhado, e farei isso mais abaixo. Mas, por favor, não tome isso como um método que deve ser seguido à risca, a ferro e fogo. O importante é você entender a ideia base, e adaptar isso para o seu perfil, caso ache útil.
 
Fazendo uma analogia, é como passar as marchas de um carro. Não tenho um roteiro, uma receita de bolo, para dizer quando passar da 3ª para a 4ª marcha, ou da 4ª para a 5ª. Simplesmente dirijo. No entanto, se alguém me perguntasse "Vítor, exatamente quando você faz a troca de marcha?", eu teria que me imaginar dirigindo, encontrar as situações típicas, mais ou menos estáveis, nas quais a troca ocorre, pegar os elementos relevantes, e enunciar uma diretriz. Exemplo: quando estou numa estrada plana, pensando em manter uma velocidade constante de 60 km/h, eu troco da 3ª para a 4ª marcha mais ou menos por volta de uns 45 km/h.
 
Isso não significa, de modo algum, que eu dirijo olhando para o velocímetro, esperando dar 45 km/h, para aí trocar de marcha, concorda? Isso seria uma inversão das coisas: seria sobrepor o "método" ao próprio ato de dirigir. Na verdade, suponho que o motivo real que leva à troca de marcha seja outro - adequar o torque e a quantidade de giros à velocidade.
 
E Vítor, qual é o exato giro que leva à troca de marcha? Como você o detecta?
 
Eu sei lá como eu o detecto. Imagino que seja pelo barulho.
 
Mas quantos de quantos decibéis tem que ser esse barulho para indicar um giro muito alto?
 
Não faço ideia!
 
O exemplo é grotesco, especialmente considerando que eu não entendo bulhufas de mecânica de carro, mas é só para dizer que não dá para transformar tudo em procedimentos. O que dá para fazer é pegar os aspectos mais visíveis e objetivos (como a velocidade de 45 km/h) e dar isso como uma primeira diretriz. Serve como ponto de partida, não como verdade universal.
 
Guardadas as devidas proporções, vocês nunca me verão defendendo um método rígido de estudos, com um roteiro fixo, constituído de atividades detalhadamente planejadas com base numa "verdade universal". Voltando à analogia, se eu fosse gravar um vídeo falando da troca de marcha, eu diria vagamente algo como: quando você perceber que o giro do motor está muito alto, troque a marcha. Uma regra prática para passar da 3ª para  a 4ª é a velocidade de 45 km/h.
 
Feita a analogia, segue o resultado no vídeo abaixo.
 
 
 
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Curiosidades
 
Depois que escrevi o primeiro artigo, tive contato com a obra do professor Píer. Resumi seus quatro livros no meu blog [2] , e finalmente cheguei a um palpite sobre de onde surgiu o método baseado na curva do esquecimento.
 
Os livros do professor Píer são fantásticos. Ele estudou neurociência e usou seus conhecimentos para mostrar como deve ser feito um estudo de qualidade. Os quatro livros dele têm basicamente a mesma essência. Se você ler um, não precisa ler os outros. O que muda de um para o outro é o seu interlocutor: o primeiro é direcionado para jovens alunos, o segundo para os pais, o terceiro para professores; e o quarto para concurseiros. No volume destinado aos professores há uma crítica bacana sobre o sistema educacional brasileiro, falido, e o nefasto método construtivista. Mas, na parte que nos interessa para melhorar a qualidade de nossos estudos, isso os quatro livros são essencialmente a mesma coisa.
 
Um aspecto que ele fala toda hora, nos quatro livros, é que a informação nova "gruda" em nossa memória por meio de uma alteração em nosso "hardware". Nosso cérebro muda fisicamente (com novas conexões, novas redes neurais) para abrigar determinada informação. Quando ela fica muito tempo sem ser acessada, aquela rede pode ser "canibalizada" e usada para abrigar outra informação. E com isso nós esquecemos de coisas que há muito tempo não usamos. Por isso ganha relevância a revisão.
 
Oras, revisar é algo essencial, isso não se discute. A discussão é sobre tornar isso um roteiro engessado, focado num método e não na real necessidade.
 
Voltando ao professor Píer, especificamente no quarto livro, aquele voltado ao concurseiro, e apenas nesse volume, o autor cita o estudo do Ebbinghauss e sua curva do esquecimento, para corroborar que, com a passagem do tempo, perdemos informação. Mas foi só isso. Uma citação, de passagem. Eu imagino que, a partir disso, as pessoas pegaram essa curva do esquecimento como algo sagrado, criaram as revisões programadas, e isso passou a ser uma verdade universal.
 
Mas nem o próprio professor Píer falava disso. Em momento algum, ao menos no livro que tenho em mãos, ele fala que devem ser feitas revisões com 24horas, 7 dias, 30 dias e 60 dias. Ele falou genericamente que é importante fazer revisões rápidas e frequentes da matéria. Ainda manda revisar com questões, o que já melhora muito as coisas (e é exatamente o que eu faço!)
 
Me parece que ele quis simplesmente dar um exemplo concreto (similar ao "quando chegar a 45 km/h, troque de marcha!") e as pessoas acharam que aquilo era algo para ser feito de forma invariável. Vejam exatamente o que ele diz (vou omitir os gráficos):
 
A estratégia para evitar essa catástrofe é não deixar que as redes neurais sejam canibalizadas pelos assuntos a serem estudados depois.
Se depois de dois ou três dias (na semana seguinte, por exemplo) for feita uma boa revisão do assunto, podemos voltar aos 90% ou 100%.
Mas... a vida continua. Outros assuntos são estudados e a retenção voltará a diminuir.
Mas não tão rapidamente. Dá para perceber (insistimos no exemplo dado) que uma boa revisão depois de dez dias permite voltar de 90% a 100%
Mais uma vez, se a retenção cair para 90% da original (depois de 25 dias, no exemplo), podemos dar mais um refresh!
 
Um detalhe interessante: nos outros três livros ele não menciona essa curva do esquecimento. Imagino que, se fosse algo tão relevante assim para a tese dele, estaria presente em todos os seus livros, concorda? E, antes que os alunos de psicologia venham me bater por eu estar "atacando o Ebbinghauss", destaco que não é nada disso. O estudo dele, por mais importante que tenha sido, tem seu contexto, tem suas premissas. Minha crítica é importar um estudo feito para determinado contexto e aplicá-lo em outro, nos quais as necessidades práticas relacionadas a tempo e quantidade de matéria são bem diferentes.

Notas:
 
 
[2] Links para os resumos dos livros do professor Píer:
 
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