Os protestos na Turquia - "Somos todos filhos de Ataturk"

por Leandro Signori em 06/06/2013
A Turquia é um dos destinos turísticos mais procurados pelos brasileiros, tendo sido um dos cenários de Salve Jorge, recente novela global. Nos últimos dias, o país convive com grandes protestos, críticos ao governo do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan.

Os grandes projetos urbanísticos governamentais estão na origem das manifestações, iniciadas há uma semana. Os primeiros protestos aconteceram para impedir a construção da réplica de uma caserna militar do Império Turco-Otomano, de um centro comercial e uma mesquita no parque Gezi. Amado pela população de Istambul, o parque fica ao lado da Praça Taksim, que por décadas foi o local de manifestação de todas as lutas sociais.

Suprimir este parque e substituí-lo, por um complexo comercial e cultural, é somente a centelha das manifestações que estamos vendo atualmente. O verdadeiro motivo das manifestações está nos cartazes dos manifestantes da Praça Taksim, com o dizer “Somos todos filhos de Ataturk”. Após a Primeira Guerra Mundial, sob as ruínas do Império Turco-Otomano, a Turquia moderna foi fundada há 90 anos, por Mustafá Kemal “Ataturk” (pai dos turcos). Reformista, aboliu o califado islâmico e a poligamia; substituiu o direito islâmico por legislação de feitio ocidental e criou o estado laico, ao anular artigo constitucional que declarava ser o Islamismo, a religião do Estado. Prosseguindo nas reformas separou a mesquita da escola, concedeu direitos iguais as mulheres e a independência ao Poder Judiciário.

O que os manifestantes estão dizendo é que o atual governo, no poder a 10 anos, baseado em um partido islâmico moderado, está reintroduzindo gradativamente o islamismo no país. As mulheres, principalmente no serviço público, recebem recados para se vestirem com roupas tradicionais se quiserem progredir na vida, o beijo público começa a ser proibido, uma lei recente proíbe a venda e a publicidade de bebidas alcoólicas e nas escolas se reintroduzem cursos sobre o Corão. Tudo isto, mais o envolvimento da Turquia no apoio aos rebeldes na guerra civil da Síria, criaram este caldo que explode agora. É uma explosão de muitas causas, não é de um partido só e envolve uma ampla classe média secularista, laica e moderna das cidades turcas. O que está ocorrendo na Turquia é uma luta por liberdades públicas e individuais, em um país que está longe dos regimes fundamentalistas do Oriente Médio.
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