Raciocínio Crítico ICMS SP

por Vítor Menezes em 09/01/2013
Pessoal, recebemos e-mails de alguns alunos solicitando a criação de um filtro para seleção de questões sobre "Raciocínio Crítico", por conta do ICMS/SP.

Infelizmente, não poderemos criar, porque não temos questões no site que tratam disso. E porque é que não temos? Porque esse tema foi uma inovação da FCC. Os concursos anteriores não cobraram isso.

O que eu sugiro que vocês usem para treino é o seguinte:

1) O edital tem ainda uma parte de lógica (avaliação de argumentos). Isso é estudado dentro do filtro "lógica", mais especificamente "lógica de argumentação". Pela descrição do edital, espero uma cobrança maior dos argumentos indutivos (no Tec as questões estão com esse nome mesmo: "argumentos indutivos"). O problema é que são raríssimas as questões sobre argumentos indutivos. A grande maioria das questões de provas anteriores é mesmo sobre argumentos dedutivos (esses também podem ser cobrados na prova do ICMS, ok?)

2) No tópico "outros exercícios de lógica" tenho classificado as questões que independem de qualquer conhecimento teórico prévio. Por essa característica, acredito que podem ser úteis como treino. Mas já adianto: o perfil das questões ali catalogadas deve ser um pouco diferente daquilo que a FCC vai cobrar nesse ICMS SP Como disse, o tal do raciocínio crítico foi inovação da FCC, não temos questões de provas anteriores que se enquadrem perfeitamente nisso.

O grande detalhe é que em "outros exercícios de lógica" temos questões mais relacionadas à dedução do que indução. E, pela descrição do edital, acredito que o foco serão questões em que não se chega a conclusões com 100% de certeza, mas a conclusões prováveis, e que vão exigir uma boa interpretação de texto do candidato.

Para ficar mais claro o que estou querendo dizer, vamos dar alguns exemplos de questão.


(FCC 2004) Leia os argumentos abaixo e posteriormente assinale a alternativa correta.
I. “Todos os X são Y; todos os Y são Z; logo, todos os X são Z.”
II. “Na escola A, 5/6 dos professores são doutores; X leciona em A; logo, X é doutor.”

a) Ambos são argumentos dedutivos.
b) O primeiro é um exemplo canônico de um argumento indutivo. O segundo é um típico argumento dedutivo.
c) O segundo argumento apenas estaria correto com a redação seguinte: “Na escola A, 5/6 dos professores são doutores; X leciona em A; logo X não é doutor.”
d) O primeiro argumento não é válido. Seria válido, no entanto, enunciar: “Todos os X são Y; todos os Y são Z; logo, todos os Y são X.”
e) O primeiro é um exemplo canônico de um argumento classificado como válido pela lógica dedutiva. O segundo é um argumento que não é classificado como válido pela lógica dedutiva, denominado indutivo.

Resolução.
Num argumento dedutivo procura-se encadear premissas de forma de tal modo que elas suportem, logicamente, a conclusão. Neste contexto, em um argumento válido, o fato das premissas serem verdadeiras implica que a conclusão, necessariamente, também seja verdadeira.

Acontece que existem argumentos que não pretendem ser dedutivos. Eles não têm o objetivo acima descrito. Tais argumentos pretendem apenas chegar a conclusões prováveis, ou seja, que provavelmente são corretas. Tais argumentos não são classificados em válidos ou inválidos. São os chamados argumentos indutivos.

O grande exemplo de argumento indutivo é aquele obtido com o emprego da analogia. Ela, de fato, é muito utilizada no nosso dia a dia, nas mais diversas situações. Exemplo de argumento com analogia:

Já comprei diversos tênis da marca Alfa, todos eles apresentaram excelente qualidade, serviram-me muito bem. Estou precisando comprar meias novas. Embora não conheça meias de nenhuma marca disponível na loja, vou optar pelas meias da marca Alfa, pois espero que sejam de tão boa qualidade quanto seus tênis.

Notem que as premissas eram: existem tênis da marca Alfa; existem meias da marca Alfa; os tênis da marca Alfa são ótimos. E a conclusão foi: as meias da marca Alfa devem ser ótimas. Observem que a conclusão não decorre logicamente da premissa. É apenas uma conclusão provável, algo que tem uma boa chance de ser verdadeiro.

É muito raro isso ser cobrado em prova. Essa é uma das poucas questões sobre isso.

No primeiro argumento, as premissas suportam logicamente a conclusão. É um argumento dedutivo e válido.

No segundo argumento, a pretensão é apenas chegar a uma conclusão provável. Como a grande maioria dos professores é doutores e, sabendo que X é professor, é bem provável que ele seja um doutor. Trata-se de um argumento indutivo.

Gabarito: E

Também espero uma boa dose de argumentos junto com interpretação de textos. Exemplo:

(CESPE 2010) O sustentáculo da democracia é que todos têm o direito de votar e de apresentar a sua candidatura. Mas, enganoso é o coração do homem. Falhas administrativas e maior tempo no poder andam de mãos dadas. Por isso, todos precisam ser fiscalizados. E a alternância no poder é imprescindível. Considerando o argumento citado, julgue os itens subsequentes.

1. Esse é um argumento válido.
2. A sentença “Falhas administrativas e maior tempo no poder andam de mãos dadas” é uma premissa desse argumento.
3. A afirmação “E a alternância no poder é imprescindível” é uma premissa desse argumento.

Resolução.
Premissas:
1. O direito ao voto é sustentáculo da democracia e o direito de apresentar candidatura também é sustentáculo da democracia.
2. Maior tempo no poder causa falhas administrativas.

Conclusão:
Todos precisam ser fiscalizados e deve haver alternância no poder.

O argumento apenas traz questões comumente discutidas. Sabemos que líderes populistas que ficam muito tempo no poder geralmente se sobrepõem à própria lei e ao estado de direito, o que favorece o cometimento de diversas irregularidades administrativas e, em casos extremos, a própria queda da democracia. Por isso, realmente é importante que todos sejam fiscalizados, pois ninguém deveria estar acima da lei. Também é importante que haja alternância no poder.

Apesar de tudo que foi afirmado pelo argumento fazer parte do senso comum, do que entendemos por razoável, não houve preocupação em ligar premissas e conclusão. As premissas não foram postas de forma lógica, garantindo a validade da conclusão.

Sabemos que o argumento quis partir de fatores que, aparentemente, garantem a democracia. Depois abordou fatores que ameaçam a democracia. E, com isso, quis concluir sobre a importância da fiscalização e da alternância no poder.

Faltaram premissas que nos garantissem que:
- fiscalizações evitam falhas administrativas.
- falhas administrativas comprometem a democracia.
- a democracia deve ser mantida.

Apesar de estas informações estarem implícitas para muitos de nós, elas não foram trazidas para o argumento.

Com isso, o resultado é que o argumento se resume a diversas frases soltas, sem conexão.

Por isso, o argumento é inválido.

Observem que ao classificar um argumento em "válido/inválido", estamos dentro da lógica de dedução. Quem recebe tal classificação são os argumentos dedutivos. Neles não estamos interessados em chegar a uma conclusão provável. Mas sim a uma conclusão que necessariamente decorre das premissas. Certo?

Vamos aos itens.

Primeiro item: como vimos, o argumento é inválido.

Gabarito: errado.

Segundo item:

De fato, a frase que se refere à ligação entre falhas administrativas e maior tempo no poder é uma premissa do argumento.

Gabarito: certo

Terceiro item:

A afirmação de que a alternância no poder é imprescindível é uma das parcelas da conclusão.

Gabarito: errado


(FCC 2005)
No Japão, muitas empresas dispõem de lugares para que seus funcionários se exercitem durante os intervalos de sua jornada de trabalho. No Brasil, poucas empresas têm esse tipo de programa. Estudos têm revelado que os trabalhadores japoneses são mais produtivos que os brasileiros. Logo, deve-se concluir que a produtividade dos empregados brasileiros será menor que a dos japoneses enquanto as empresas brasileiras não aderirem a programas que obrigem seus funcionários à prática de exercícios.
A conclusão dos argumentos é válida se assumirmos que:
a) a produtividade de todos os trabalhadores pode ser aumentada com exercícios
b) a prática de exercícios é um fator essencial na maior produtividade dos trabalhadores japoneses
c) as empresas brasileiras não dispõem de recursos para a construção de ginásios de esporte para seus funcionários
d) ainda que os programas de exercícios não aumentem a produtividade dos trabalhadores brasileiros, este programas melhorarão a saúde deles
e) os trabalhadores brasileiros têm uma jornada de trabalho maior que a dos japoneses.

Resolução:

Premissas:
1. No Japão há incentivo à prática de exercícios pelos funcionários.
2. No Brasil não há incentivo à prática de exercícios pelos funcionários.
3. A produtividade dos japoneses é maior que a dos brasileiros.
4. ????
Conclusão: Enquanto as empresas brasileiras não incentivarem a prática de exercícios, a produtividade dos empregados brasileiros será menor que a dos japoneses.

Temos que identificar a quarta premissa, que faz com que o argumento seja válido.
Todo o argumento é voltado à vinculação entre prática de exercícios e ganho de produtividade. Só que, apesar de isso ter ficado implícito, nenhuma premissa trata disso explicitamente. Falta uma premissa que afirme que a prática de exercícios é preponderante para o aumento na produtividade.

Gabarito: B


Procurei na internet e achei o seguinte endereço, contendo várias questões de raciocínio critico: http://www.eaesp.fgvsp.br/subportais/interna/Sobre/rc1_98.HTM

Dá para notar que é bem interpretação de textos mesmo. E, como sobredito, questões mais relacionadas à indução (chegar a conclusões prováveis) do que à dedução (chegar a conclusões que efetivamente decorrem logicamente das premissas)
 
Segue a primeira questão do endereço acima indicado:

Os computadores estão presentes na vida da maioria das pessoas. Para não ficar desatualizado, o Sr. Aderbal deseja comprar um computador pessoal. Esse computador, para satisfazer suas necessidades, precisa ser muito rápido. Sabe-se que, além do processador, todos os periféricos influenciam no desempenho geral do computador. Caso o Sr. Aderbal compre um Pentium 200 MMX, um dos processadores mais rápidos do mercado, pode-se concluir que:

a.) Com certeza o computador atenderá suas necessidades.
b.) Pode ser que esse computador atenda suas necessidades.
c.) Esse computador não atenderá suas necessidades.
d.) Possuindo uma placa de vídeo, este computador com certeza atenderá suas necessidades.
e.) As alternativas (b) e (d) estão corretas.

Resolução:

Sabemos que:
  1. Aderbal precisa de um computador muito rápido
  2. Periféricos e processador influenciam no desempenho do computador
  3. Aderbal comprou um pentium 200 MMX
  4. Pentium 200 MMX é um dos mais rápidos do mercado

Vejam que, apesar de o pentium ser um dos mais rápidos do mercado, não temos como garantir que ele atenda a Aderbal, pois não temos nenhuma informação concreta para saber a partir de qual velocidade o computador é rápido o suficiente para Aderbal. Isso não foi dito pelo enunciado.

Se Aderbal estiver comprando o computador no mercado local de uma cidade pequena do interior, pode ser que nem o mais rápido do mercado seja suficiente. Assim, o simples fato de o 200 MMX ser um dos melhores do mercado não significa que já baste para Aderbal.

Assim, não temos certeza nem de que será suficiente, nem de que não será. Incorretas as letras A e C.

A letra D é errada, pois traz uma conclusão sobre placa de vídeo. Só que absolutamente nada foi dito sobre placa de vídeo no enunciado, então nada temos como concluir.

A letra B é correta, pois realmente existe a possibilidade de que o 200 MMX sirva para Aderbal.

Gabarito: B


O dono de uma livraria enfrenta um problema para administrar seu estoque. Ele precisa optar por uma metodologia que mantenha uma grande quantidade de livros organizada, de forma que seus funcionários possam encontrar o que o cliente deseja. Sabe-se que 100% dos livros que vende são para os alunos de um colégio de 1° e 2° graus localizado em frente à sua loja e que, conhecendo os hábitos de seus clientes, os pequenos estudantes, que normalmente já viram o livro que desejam mas sempre esquecem o nome do autor e o nome do livro, a forma mais rápida e prática de organizar seu estoque atendendo suas necessidades é:

a.) Disciplina / Assunto / Cor da Capa
b.) Autor / Nome do Livro
c.) Editora / Autor / Nome do Livro
d.) Assunto / Editora / Autor / Nome do Livro
e.) Disciplina / Assunto / Editora / Autor / Nome do Livro

Resolução:

Percebam que os alunos não guardam nome de autor e livro. Então não é útil usar tais critérios para organizar os livros, pois nenhuma pista dão ao vendedor para localizar os livros.

Pense numa criança chegando na loja e dizendo que quer um livro, mas não sabe nem nome, nem qual autor. Para que é que o vendedor iria precisar de livros organizados por título e nome de autor? Para nada!

Assim, riscamos todas as alternativas que trazem um dos dois critérios:

a.) Disciplina / Assunto / Cor da Capa
b.) Autor / Nome do Livro
c.) Editora / Autor / Nome do Livro
d.) Assunto / Editora / Autor / Nome do Livro
e.) Disciplina / Assunto / Editora / Autor / Nome do Livro

 

Gabarito: A

O critério "cor da capa" pode ser bem útil. Se as crianças viram o livro, pode-se supor que lembram de detalhes como o tamanho, cor da capa, eventuais desenhos que aparecem na capa. Aqui entra um pouco de indução. Temos certeza de que elas lembrarão da cor da capa? Não, não temos! Mas sabemos que crianças, de modo geral dão mais atenção a cor do que ao texto constante da capa (onde havia nome de livro e autor). Então é razoável supor que a cor da capa permitirá que as crianças apontem o livro. Se uma criança lembrar que o livro tem capa amarela, e os livros estiverem organizados por cor, isso facilita o trabalho do vendedor.

"Disciplina/assunto" também são bons critérios. Novamente, não podemos ter certeza de que as crianças saberão qual a disciplina e o assunto. Mas é razoável supor que pelo menos a matéria referente ao livro o aluno saiba. Ele sabe que quem "mandou comprar" foi o professor da aula de Geografia, então o livro é de Geografia. Se nem isso o aluno souber, daí ficaria quase impossível achar o livro.

Agora, cá para nós, o que o dono da loja deveria fazer seria entrar em contato com a escola e pedir cópia das listas de livros de todas as séries. Quando o aluno entrar na loja, pronto, basta perguntar qual a série dele (risos).



Bom, é isso gente. Resumindo tudo: fora a parte de lógica de argumentação, não temos questões no Tec que se enquadrem exatamente no que a FCC vai cobrar, simplesmente porque foi mesmo uma inovação no mundo dos concursos.

Dá para treinar o racicínio com as questões catalogadas nos tópicos indicados no início desse artigo (lógica de argumentação e "outros exercícios de lógica"), embora o enfoque seja diferente daquele que, espero, será cobrado pela FCC.

E tem também o endereço que passei acima, com algumas questões de raciocínio crítico: http://www.eaesp.fgvsp.br/subportais/interna/Sobre/rc1_98.HTM.

Bons estudos!

Vítor
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