Gabarito definitivo do Bacen

por Vítor Menezes em 29/11/2013
Estava hoje olhando os gabaritos definitivos do concurso do Bacen. Discordei de várias alterações de gabarito, mas vou deixar para comentar mais detalhadamente sobre isso quando as questões forem cadastradas aqui no TecConcursos e eu for inserir as resoluções.
 
No entanto, uma questão me deixou particularmente incomodado. Trata-se da questão 31 da prova de Raciocínio Lógico - conhecimentos básicos.
 
Faço questão de ressaltar que "sou fã de carteirinha" desta banca, acho suas provas extremamente bem feitas, pelo menos no que se refere às provas de exatas, que são as que acompanho. Falhas todas as bancas cometem, candidatos cometem, professores idem, enfim, errar todo mundo erra. E, no geral, eu acho que o Cespe elabora sim excelentes provas.
 
Apesar da excelência da banca, desta vez, na minha opinião, cometeram um pequeno deslize.
 
Segue enunciado:
 
Se o argumento 2 for válido, então a proposição Q3 será verdadeira
 
Para melhor compreensão, fiquem com a informação de que Q3 é uma das premissas do argumento 2.
 
No gabarito definitivo a questão foi dada como CERTA, com a seguinte justificativa:
 
O conteúdo do item está correto, pois, se o argumento 2 for válido, então a proposição Q3 será verdadeira. 
Por este motivo, opta‐se pela alteração do gabarito
 
Mas notem que houve uma alteração indevida de gabarito, o gabarito preliminar estava perfeito.
 
Toda alteração indevida de gabarito implica em uma pequena injustiça, pois dá pontos indevidamente a quem, em verdade, errou a questão, e tira pontos de quem de fato sabia resolvê-la. Foi justamente o caso acima. Com o agravante de a justificativa para a alteração de gabarito ainda passar um ensinamento incorreto.
 
O fato de um argumento ser válido não tem absolutamente nada a ver com a veracidade ou falsidade das proposições que o compõem.
 
Sobre o assunto, seguem as palavras de Irving Copi, no livro "Introdução à lógica":
 
Verdade e falsidade podem ser pedicados das proposições, nunca dos argumentos. Do mesmo modo, propriedades de validade ou invalidade só podem pertencer a argumentos dedutivos, mas nunca a proposições. Existe uma conexão entre validade ou invalidade de um argumento e a verdade ou falsidade de suas premissas e conclusão, mas essa conexão de modo nenhum é simples. Alguns argumentos válidos contém apenas proposições verdadeiras, como, por exemplo:
 
Todas as baleias são mamíferos.
Todos os mamíferos têm pulmões.
Portanto, todas as baleias têm pulmões.
 
Mas um argumento pode conter exclusivamente proposições falsas, e apesar disso, ser válido, como, por exemplo:
Todas as aranhas têm seis pernas.
Todos os seres de seis pernas têm asas.
Portanto, todas as aranhas têm asas.
 
Este argumento é válido porque, se suas premissas fossem verdadeiras, sua conclusão também teria que ser verdadeira, mesmo no caso em que, de fato, fossem todas falsas. Por outro lado, se refletirmos sobre o argumento:
 
Se eu possuísse todo o ouro do Forte Knox, seria muito rico.
Não possuo todo o ouro do Forte Knox.
Portanto, não sou muito rico.
Vemos que, embora suas premissas e sua conclusão sejam verdadeiras, o raciocínio não é válido.
 
Fechando a questão, o fato de um argumento ser válido não nos ajuda absolutamente em nada na hora de determinar se suas premissas são V ou F. Nada podemos garantir sobre isso. Portanto, a questão está ERRADA.
 
O que a lógica de argumentação nos diz é o seguinte. Num argumento válido, supondo que as premissas são V, então a conclusão necessariamente é V também. Mas determinar se as premissas são de fato verdadeiras não é um trabalho da lógica, sim das outras ciências, como química, física, matemática, etc.
 
É interessante apontar que, em provas anteriores da mesma banca, já se cobrou este mesmo tema. Mas, da vez anterior, a banca deu o gabarito correto, ou seja, reconheceu que um argumento válido pode perfeitamente ter premissas falsas. Para quem quiser ver a questão, segue link:
 
 
Finalmente, se a proposição lógica em questão fosse: "Se o argumento 2 é válido, então a proposição Q3 é verdadeira", aí sim, teríamos uma proposição verdadeira. Isso porque, no caso concreto, o argumento 2 é inválido. Isso implica em antecedente falso, o que por sua vez garante condicional verdadeiro.
 
No entanto, como sobredito, não foi esta a tese defendida pela banca para justificar a troca de gabarito.
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