Crítica ao método das revisões (curva do esquecimento)

por Vítor Menezes em 10/06/2016
Olá!!! Bom dia, boa tarde, boa noite!!!
 
Há algumas semanas eu apresentei aqui no site a minha filosofia de estudos, que me levou à aprovação em 6 grandes concursos: Analista do MPU, Agente e Escrivão da Polícia Federal, Auditor Fiscal dos ICMS's de SP e MG, e Auditor do TCU.
 
A URL do artigo é essa aqui:
 
 
O artigo "rendeu" um bocado, recebi inúmeras mensagens, e as principais eu respondi no fim do próprio artigo. Algumas delas trataram do chamado "método das revisões", em que o candidato deve revisar um conteúdo teórico depois de 10 minutos da leitura inicial, e, depois disso, em intervalos pré-definidos (24 horas, 7 dias, 30 dias). Esses intervalos variam um pouco de site para site (há quem recomenda fazer com 24 horas, 48 horas, 4 dias, etc). Mas a ideia geral é sempre a mesma.
 
Na oportunidade eu disse ser contra essa metodologia, que é hoje dominante no mercado - dezenas e mais dezenas de sites a recomendam. Logo que o artigo foi ao ar, recebi algumas respostas bem interessantes, e ficou bem claro que muita gente está se "afogando" nas revisões, que elas estão tomando um tempo absurdo e o aluno já praticamente não consegue mais render da forma como gostaria.
 
Se este é o seu caso, esse artigo é para você!
 
Se não for, se você está aplicando o método e está tendo resultados, e está satisfeito, maravilha, continue aplicando! Quem sou eu para querer mexer em time que está ganhando?
 
Vamos lá, se você continuou a leitura, suponho que você esteja então com alguma dificuldade no método.
 
Aparentemente o método foi baseado num trabalho do Sr. Hermann Ebbinghaus (1885), que estudou o quanto de informação nossa memória retém com o passar do tempo.
 
(imagem extraída do site http://sambatech.com/blog/insights/curva-esquecimento-como-atrair-mais-alunos-no-seu-ead/)
 
 
 
Em síntese, depois de 20 minutos você já teria perdido 40% da informação. Com 9 horas só sobrariam na sua mente 35% do conteúdo. E por aí vai.
 
Há sites com curvas mais dramáticas, em que depois de 30 dias a retenção tende a 0.
 
O que importa é que a gente perde muito rapidamente as informações, e, para evitar isso, deveríamos refrescar a memória com revisões regulares.
 
 
E onde reside minha crítica?
 
Em primeiro lugar, na prática esse método é inviável. Tente levar 16 matérias em paralelo de um grande concurso de área fiscal, tendo que revisar cada aula com 10 minutos, 24 horas, 7 dias, 30 dias. Olha, vai chegar uma hora em que você não fará outra coisa a não ser revisar.
 
Segundo: é muito pouco verossímil que a gente perca tanta informação assim em pouco tempo.
 
Quando você termina de estudar pela primeira vez a aula de licitações, tudo bem, você pode até não ter decorado os limites para concorrência, tomada de preços ou convite, pode até não ter decorado  os casos de dispensa, ok, com isso eu concordo. Mas poxa vida, tudo isso é simplesmente decoreba. Coisas que devem ser decoradas, isso é óbvio que devem ser revisadas várias e várias vezes, e ao meu ver a melhor forma de fazer isso nem é com um cronograma engessado do tipo 24h / 7 dias / 30 dias / etc, mas sim com centenas de questões de provas anteriores.
 
A parte mais importante do estudo é a que envolve a compreensão. E, para esse tipo de coisa, eu sinceramente acho que a curva do esquecimento, como mostrada acima, com a retenção caindo absurdamente de forma tão rápida, não se aplica.
 
Exemplo. Se você estudou a aula de licitações e depois de dez minutos você já tiver esquecido que ela se destina, entre outras coisas, a buscar a proposta mais vantajosa para a Administração, bem como a propiciar um tratamento isonômico aos licitantes, aí tem coisa muito errada com o seu estudo! Não dá para esquecer disso nem com 10 minutos, nem com 24 horas, nem com 7 dias. Se você precisar de um monte de revisão para absorver isso, é um sinal bem forte de que você está estudando sem concentração alguma.
 
O carro chefe numa preparação para concursos não é e nem pode ser o simples decoreba. Em primeiro lugar você tem que ter uma compreensão mínima do cerne de cada tema, da sua lógica básica. O decoreba, a memorização, tudo isso é importante, claro que é, mas é acessório! Deixe as questões de prova te mostrarem o que deve ser memorizado e quando deve ser memorizado (mais sobre isso no artigo já citado acima - veja aqui). Assim as revisões atenderão a uma necessidade concreta e prática, e não a um cronograma engessado difícil de cumprir.
 
Muito bem, mas como a curva do esquecimento virou "pop", pesquisei no google pelo trabalho do Sr. Ebbinghaus, e localizei esse artigo aqui:
 
 
Se vocês forem até o capítulo 3, em que ele especifica o método de investigação dele, verão que ele construiu sequências de sílabas sem sentido, de tamanhos diferentes, que deveriam ser memorizadas pelas pessoas. Aí ele dava a sílaba inicial e a pessoa tinha que repetir a sequência sem hesitação. Foi assim que se mediu o quanto a memória retém depois de determinado tempo.
 
Oras, decorar sílabas sem sentido é totalmente diferente de estudar para concurso público. Primeiro, como já disse, numa preparação para concurso público o carro chefe tem que ser a compreensão da matéria, não o decoreba, que é sempre acessório. Segundo, uma coisa é você ter "1 filho para criar", ou seja, se preocupar com 1 sequência de sílabas. Outra totalmente diferente é levar dezenas de matérias parrudas, de livros com mais de 1.000 páginas, todas em paralelo.
 
Por tudo isso, eu nunca usei esse método, e não usaria se voltasse a prestar concursos.
 
Para quem quiser ver uma crítica mais detalhada, sugiro o vídeo abaixo, onde dou um exemplo prático de como é difícil aplicar o método das revisões no dia a dia. Como o vídeo ficou com 24 min 11 s, deixo a seguir um resuminho com a localização dos principais pontos:
 
  • 0 min - 1 min 16 s: apresentação do problema (alunos "sufocados" pelas revisões)
  • 1 min 16 s - 5 min 01 s: explicação do que é o método das revisões e do que é a curva do esquecimento
  • 5 min 01 - 7 min 35 s: a curva do esquecimento não espelha o que ocorre com a retenção de ideias chave
  • 7 min 35 s - 13 min 33 s: apresentação do trabalho do Sr. Ebbinghaus, mostrando que ele foi feito para um contexto de memorização de sílabas sem sentido, o que é totalmente diferente do estudo para concursos
  • 13 min 33 s - 16 min 27 s: a dificuldade de se levar um cronograma rígido de revisões, com muitas matérias em paralelo
  • 16 min 27 s - 21 min 23 s: exemplo prático para mostrar as dificuldades de implementação do método
  • 21 min 23 s - 24 min 11 s: conclusão
Encerrando, aproveito para passar o link dos meus canais:
 
 
 
 
Livro indicado no vídeo: Scrum. A arte de fazer o dobro do trabalho em metade do tempo
 

Começaram a chegar perguntas por e-mail, então decidi complementar o artigo.
 
1) Vitor, como você revisa?
 
Boa parte daquilo que faço já foi dita no artigo anterior:
 
 
Mas obviamente posso acrescentar algumas coisas.
 
Eu leio uma aula. Na primeira leitura, procurando entender a lógica básica daquele assunto. Não me preocupo com o decoreba. Faço algumas questões. E aqui eu não tenho o objetivo de me avaliar. Errar ou acertar a questão é irrelevante para mim. Meu objetivo é entender cada mínimo detalhe de cada questão e, se for preciso, voltar na teoria para preencher lacunas de conhecimento. Aqui também já começo a identificar o que é realmente importante ser decorado, embora meu foco ainda esteja em entender a lógica da aula.
 
Esse processo é meio lento, de modo que eu posso demorar um pouco para matar uma aula.
 
Como eu faço um estudo mais demorado de cada aula, não sinto a necessidade de revisar tão cedo, já que estou preocupado, primordialmente, com a lógica básica de cada assunto (veja exemplo prático no vídeo constante do artigo acima citado). Esse tipo de coisa a gente não esquece assim tão fácil. Então, depois que eu terminar uma aula, passo para a próxima, repito o processo, depois para a seguinte, e assim vai, sem revisar nada.
 
Ressalva: se na aula 2 eu perceber que restou alguma lacuna da aula 1 que está me atrapalhando, aí evidentemente eu paro tudo e volto na aula 1 para preencher a lacuna. Se não as dúvidas viram bola de neve.
 
Então suponha que eu esteja estudando agora direito tributário. Comecei a aula 03 do curso. Leio duas horas de aula, faço algumas questões, nesse esquema bem detalhado, e deu, já me cansou. Aí eu não forço a barra, porque estudo para mim tem que ser prazeroso. Nessa hora eu paro de estudar tributário, e intercalo com resolução de questões de matérias que eu já tenha "finalizado". Se eu já finalizei, digamos, contabilidade, posso então intercalar com resolução de questões de CGE.
 
Na hora de resolver CGE, se pintar alguma dúvida, eu volto no material teórico e tiro a dúvida. Pronto, aqui eu estou revisando CGE, mas não com base num cronograma previamente definido, sim com base em necessidade concreta dada pelas questões. Além disso, em CGE eu já estou numa fase em que fico mais tempo resolvendo questões. Logo, já terei uma clareza maior do que precisa ser de fato decorado, e o decoreba começa a ganhar relevância, sempre direcionado pela necessidade de se matar questões. A própria resolução em volume de questões já me ajuda a gravar coisas.
 
No dia seguinte eu volto a estudar tributário de novo. Continuo lá na aula 03, até ter terminado todos os detalhes que eu achar pertinente. Intercalo novamente com questões de matérias que eu já tenha terminado (posso agora intercalar com português).
 
No dia seguinte, tudo de novo, vou agora para a aula 04 de tributário, e tudo se repete.
 
Resumo:
  • eu estudo uma matéria nova por vez, tendo contato com ela todo dia. Exemplo: tributário. Se durante a leitura do capítulo X+1 eu perceber que algum conceito do capítulo X está fazendo falta, eu volto e reviso. Se não, continuo o estudo, sem revisar de novo o capítulo X, e vou avançando os capítulos de tributário
  • em paralelo, sempre que eu cansar de estudar tributário, vou alternando com resolução de questões de outras matérias que já tenha finalizado (exemplo: contabilidade). Sempre que travar em alguma questão, volto na teoria para revisar pontualmente. Veja que a revisão é com base em necessidade ´concreta, definida pelas questões
  • no dia que eu terminar de estudar tributário, ela vira mais uma matéria "finalizada", que será revisada por meio de questões, junto com contabilidade. E aí parto para a próxima matéria "nova".
 
Notem que não há um cronograma fixo que me diga quando tenho que reler alguma aula teórica. Eu releio quando preciso, conforme for travando em alguma questão (no caso de uma matéria já finalizada - como era o exemplo de contabilidade) ou quando for travando em alguma leitura de matéria nova (no exemplo, era o caso de tributário).
 
Vitor, e se eu estiver estudando a primeira matéria, vou intercalar com questões do quê?
 
Eu particularmente intercalava com matemática, pois sou engenheiro, achei que não precisaria estudar matemática ou lógica para concursos, fui direto para as questões. Se não for o seu caso, você pode intercalar com português. Ou inglês. Ou interpretação de textos.
 
Por fim, é importante dizer que esse estudo inicial, lento e detalhado, não é feito às cegas.
 
Exemplo concreto: na primeira vez em que fui estudar constitucional, à medida em que ia avançando na matéria, eu ia dando uma olhada em provas anteriores de área fiscal, ainda que não estivesse pronto para resolver. Percebi que a parte final da constituição quase nunca era cobrada. O que eu fiz? Nas aulas finais, dei uma lida bem por cima, só para poder localizar onde estava cada informação, e pronto. Nada de estudo detalhado. Esperei alguma questão me mostrar se precisaria me aprofundar em algo.
 
Fiz desta forma porque muitas vezes não dá tempo de a gente fechar o edital, e precisamos mesmo deixar algo de lado.
 
No TEC isso é muito mais rápido de fazer, pois não é necessário olhar questão por questão. Basta montar um caderno e ver o índice. Como exemplo, veja a filtragem de questões comentadas de constitucional, área fiscal:
 
 
Olhe quantos temas com praticamente 0% de cobrança. Rapidamente já temos uma visão do que é mais relevante e do que não é.
 
Já na fase pós edital, se eu ainda estiver com muitos assuntos pendentes, o comportamento é ainda mais drástico. Mas eu falo disso em outro momento.
 
Em linhas gerais, é desta forma que eu faço, sei que não é usual, mas é a forma que me dá prazer em estudar, e eu rendo muito mais ao ter prazer nos estudos. Eu sou um cara "serial', prefiro levar as coisas em série do que várias matérias em paralelo. Parece que me permite "aprofundar" mais no tema, fixar melhor. Sem falar que me dá mais rapidamente uma sensação de "etapa cumprida".
 
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