A Batalha do Candidato

por Orlando em 23/07/2012
Com o emprego formal globalizado sofrendo ameaças crescentes, torna-se cada vez mais atraente a investidura em cargo ou emprego público, mediante a aprovação em concurso, requisito obrigatório, pelos termos do artigo 37, inciso II da Constituição atual. Essa atração, entretanto, vem transformando os concursos públicos em verdadeiras batalhas, para as quais o candidato deve estar preparado, de modo a não sofrer grandes e dolorosas derrotas.

No clássico "A Arte da Guerra", Sun Tzu prevê que não haverá perigo de derrota para aquele que conhecer o inimigo e a si próprio, mesmo em cem batalhas.

Até para aqueles que entendam que a aprovação em concurso depende mais de suor, do que de filosofia ou estratégia, esses ensinamentos podem ser valiosos, poupando tempo, dinheiro e energia. Como vimos na evolução da tecnologia da informação e da administração de projetos, o método ganha importância, à medida que o objeto a ser alcançado se torna mais complexo, o que, sem dúvida, vem ocorrendo nos concursos.

De fato, já vai longe o tempo em que um candidato podia conseguir sagrar-se vencedor em concursos, sem qualquer preparação específica, ou com a simples leitura rápida de apostilas genéricas. Paradoxalmente, é comum ouvirmos críticas de excelentes profissionais em suas áreas de atuação, por não conseguirem aprovação em concursos para essas mesmas áreas.

Mas não é proveitoso perder tempo reclamando dos concursos, cujo processo e conteúdo certamente ainda têm muito que melhorar. A preparação do candidato deve ser sistemática, como a estratégia militar para se vencer uma batalha: pela conquista de um cargo ou emprego público, que será vencida por aquele que conhecer a si próprio e ao seu inimigo.

CONHECER A SI PRÓPRIO

Quanto ao primeiro requisito, ele é bem mais amplo e importante do que possa parecer à primeira vista, envolvendo itens como vigor, disciplina, concentração, motivação, identificação de pontos fortes e fracos, principais ameaças e oportunidades... Não, não estou brincando, a elaboração da estratégia para o projeto visando obter a aprovação em concurso merece análise SWOT, forças de Porter, etc, para que o candidato perceba o terreno em que pisa e ainda aplique parte da teoria que é obrigado a estudar para as provas.

No tocante à motivação, tudo bem se estabilidade e boa remuneração forem suficientes. Um antigo professor brincava, dizendo que a cura para o cansaço dos estudos é a consulta à tabela de remuneração do cargo. Mas escolhas de cargos cujas atribuições vão ao encontro de projetos pessoais e sociais do candidato são um diferencial importante. Como cidadão, considero lamentável que excelentes médicos estejam fazendo concursos para carreiras jurídicas, apenas pela diferença de remuneração, talvez para se tornarem futuros servidores públicos desmotivados.

Isso se reflete também nas disciplinas das provas para esses cargos, que podem cobrar conhecimentos que o candidato não tem interesse pessoal em obter. Para piorar a situação, alguns concursos exigem competências que dificilmente serão cobradas no cotidiano do profissional após a aprovação, em quantidade e profundidade tamanha que podem se tornar mais importantes do que as competências imprescindíveis ao cargo.

Muitos candidatos desperdiçam oportunidades porque investem nos concursos errados, não avaliando se estão dispostos a estudar as disciplinas necessárias à sua aprovação. Matérias como Direito e Contabilidade são frequentes alvos de rejeição por profissionais da área de exatas, assim como Matemática Financeira e Raciocínio Lógico são obstáculos para profissionais de ciências humanas.

Vencer essa rejeição depende de decisão pessoal. Como profissional de exatas, eu comecei a gostar de estudar Contabilidade, ao menos para concursos, quando alguém me falou da relação do método das partidas dobradas com os números relativos da Matemática. É algo simples e que deve ser superado, gerando, além de melhores resultados, o desenvolvimento de maior respeito em relação às demais ciências.

Um ponto de partida interessante na preparação consiste nos simulados prévios. Se o candidato deseja ser perito criminal federal, deve fazer uma prova anterior na área escolhida, de preferência a mais atual, para conhecer suas forças e fraquezas nesse tipo de certame, ANTES de começar a estudar.

É preciso cuidado também com habilidades acessórias, como a qualidade da letra e redação do texto, caso haja provas discursivas, e a rapidez para leitura e compreensão das questões da prova. Não por acaso, comecei minha preparação, para concursos com provas discursivas, por cursos de leitura dinâmica e de redação, cada um com cerca de um mês de duração.

Quais são as disciplinas normalmente exigidas e como você se relaciona com elas? Se o seu nível não é ótimo, o que pode ser feito e em que prazo? Se gostar de ferramentas, use algo semelhante a uma matriz GUT, para definir as prioridades de estudo, lembrando sempre que alguns concursos podem demorar vários anos para serem realizados de novo, mas não é possível classificar tudo como urgente (o que, aliás, costuma ser apenas reflexo de falta de planejamento).

Em geral, o principal objetivo dessas ferramentas é otimizar o uso do escasso tempo disponível. Por exemplo, mantidas as demais condições, se uma hora a mais de estudo de Auditoria aumenta em 0,2 a nota final, mas esse mesmo tempo em Contabilidade cobre matéria para aumentar em 0,3 essa nota, decide-se por esta última.

Quando o candidato terá esse nível de precisão sobre o aproveitamento das horas de estudo? Talvez nunca, mas é perceptível que a confiança nessas decisões aumenta consideravelmente à medida que aumenta o conhecimento sobre o próprio objeto de estudo.

Depois de estudar um pouco, é hora da análise de impacto. Se suas notas não melhoraram, é mais provável que você esteja estudando errado, do que as provas terem ficado mais difíceis. Hora de rever a estratégia e/ou a execução, lembrando que o método bom de estudo é aquele que traz resultado perceptível no tempo esperado.

Além disso, as medições vão lhe permitir conhecer melhor o que aprende com mais facilidade e qual o horizonte real de tempo necessário à preparação para o concurso alvo.

Dependendo do esforço necessário, talvez você conclua até que está estudando para o concurso errado. Conheço diversas pessoas, altamente capazes, que ainda estão tentando conciliar a participação em concursos da área fiscal com a área jurídica, o que costuma ser bastante complicado, pela diversidade de matérias, levando até a resultados razoáveis, mas não em nível suficiente para a convocação.

CONHECER O INIMIGO

As dicas anteriores tiveram por objetivo fornecer subsídios para que o candidato tenha conhecimento de si, bem como das potencialidades com mais probabilidade de se concretizarem em pontos e aprovação no concurso.

Mas, como ouvi dizer certa vez um comentarista esportivo, os outros também jogam. O autoconhecimento pode ajudar muito no atendimento dos critérios para não eliminação e para maximização das notas das provas dos concursos, mas não garante a classificação, já que ela depende de variáveis externas.

Entramos aqui no segundo requisito da vitória do Sun Tzu, o conhecimento do inimigo.

O primeiro desses inimigos é o edital. É inacreditável o número de pessoas que vão participar de concursos sem saber do que se trata, com dúvidas infantis como "é caneta preta ou azul?", "são quantas horas de prova?", "vai cair COBIT 4.1 ou 5?", "tem que ter graduação em informática?" e outras.

Essa falha é tão absurda quanto você ir disputar um jogo de um esporte do qual não conhece as regras. O edital é a primeira disciplina a ser estudada em qualquer concurso. Entre outras coisas, permite o conhecimento dos requisitos, conteúdo das provas e prazos, além de tornar possível a impugnação de itens com exigências não respaldadas pela lei ou pela Constituição.

O segundo inimigo a ser conhecido é a banca organizadora do concurso. Cada banca possui um modus operandi que define várias características das provas e dos conteúdos que costumam ter maior relevância na pontuação. Tal conhecimento é tão importante que alguns candidatos não se prendem ao estudo de concurso para um determinado órgão ou cargo, mas se concentram em fazer provas para uma mesma organizadora.

Embora considere isso certo exagero, tal exemplo ilustra como esse inimigo costuma dar trabalho a quem pretende ingressar no serviço público. Há pessoas que se sentem aterrorizadas pelo estilo de provas do CESPE/UnB, por exemplo, em que as provas objetivas costumam ter, por critério de correção, a pontuação -1 para itens errados, +1 para itens certos e zero para itens deixados em branco.

Vou me desculpar antecipadamente pelo terceiro inimigo a ser citado: o material didático, em que emergem duas questões importantes. Dependendo da sua interação com o material, ele pode ser inimigo ou um grande amigo.

Primeiro, há inúmeros candidatos que procuram qualquer apostila na banca de jornal e se consideram preparados para as provas. Material didático possui requisitos de qualidade, o que vem melhorando bastante nos últimos anos, com a saída do material ruim de mercado. Além disso, apostilas são resumos ótimos para revisão da matéria e complementação de aulas, mas jamais serão substitutos para a leitura do material completo a que o candidato pode ter acesso, que lhe darão maior segurança.

Assim, da mesma forma que a leitura do resumo, por melhor que seja, não dispensa a leitura da respectiva tese de doutorado, as apostilas escondem complexidades que, especialmente nos concursos mais disputados, fazem uma grande diferença entre a não eliminação e a classificação. Não tenha pena de ler.

Se você tiver tempo para ler as melhores doutrinas de Direito Administrativo e Direito Constitucional, não perca essa chance e deixe as apostilas para a revisão ou para as matérias em que não haverá tempo para leituras mais abrangentes.

Se sabe que os livros do Tanenbaum e do Date são muito importantes para fazer provas de organização de computadores, sistemas operacionais e bancos de dados, leia-os todos, não se limite a resumos esparsos.

A outra questão é o tempo dos exercícios, que precisa ser considerado nos estudos. Não adianta ler o livro ou apostila e partir para os gabaritos das questões. Exercícios precisam ser feitos, gerando dúvida que será sanada antes da prova.

Lembre-se: as provas de verdade não vêm com gabarito para consultar. Mais do que a memória, os concursos procuram testar a capacidade de raciocínio, que é a que mais deve ser exercitada durante os estudos.

Além disso, é importante reservar, se o orçamento permitir, algum tempo para realização de concursos de verdade, com conteúdo próximo ao que você deseja.

Por exemplo, quando me preparava para o concurso de auditor do TCU, então organizado pelo CESPE/UnB, elaborei um projeto de cerca de 10 meses, iniciando com leitura dinâmica e redação e com os simulados prévios, por cerca de 2 meses. Concluí que estava bem nas disciplinas de Exatas e Direito, mas precisava estudar muito as de Contabilidade, Economia e Administração.

Os 4 meses seguintes foram dedicados ao estudo das disciplinas previstas, com ênfase naquelas em que as notas dos simulados estavam baixas. Além dos livros básicos que os professores recomendaram, comprei também material complementar de Direito Administrativo e fitas com os conceitos básicos de Direito Constitucional.

Nos 4 meses finais, a ênfase foi na intensificação dos estudos pela pressão dos concursos correlatos, em número de 4: analista do Banco Central, assessor de orçamento da Câmara dos Deputados, analista do INSS e analista judiciário do TJ/DFT, este último faltando cerca de 2 semanas para o concurso alvo, por ser também organizado pelo CESPE/UnB.

Embora nenhum dos concursos me interessasse naquele momento, os resultados serviram para validar a estratégia de estudos. No Banco Central, por exemplo, vi que estava estudando Economia da forma correta, pois acertei 100% das questões cujo conteúdo já havia sido visto, mas apenas 33% daquelas que ainda estavam por vir. Na Câmara, havia grande proximidade em conteúdo com as provas do concurso alvo. No INSS e no TJ/DFT, treino de CESPE/UnB.

Por fim, cabe rápida menção ao quarto inimigo a ser conhecido, os outros candidatos.

Talvez não pareça justo chamar potenciais futuros colegas de inimigos, assim como não chamei assim o imenso conteúdo a ser estudado para as provas.

Faço isso apenas para destacar dois pontos importantes para a sua preparação.

Primeiro, os candidatos sabem a pedreira que têm pela frente e frequentemente são extremamente amigos e colaboradores, dando dicas importantes sobre como estudar e como melhorar o desempenho, exemplos que podem e devem ser imitados, no que for compatível conosco.

Segundo, é o desempenho dos demais candidatos que precisa ser superado para a sua classificação. Por isso, é preciso conhecer esses resultados, pois esse benchmarking lhe dará parâmetros objetivos a serem alcançados.

No mais, lembre-se: o candidato que bem planeja pode até perder uma batalha, mas vai reunindo forças que lhe permitirão ganhar a guerra.
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