O perigo do decoreba

Por: Vítor Menezes

O perigo do decoreba

Vou abordar o tema de duas formas: num vídeo e num artigo. Iniciando com o vídeo:

Para quem preferir o conteúdo escrito, vamos lá!

O caso da laranja

Suponha que eu vá ao mercado comprar laranja, morango e limão. No trajeto entre minha casa e o supermercado, não vou pensando na imagem da laranja. Não fico imaginando uma laranja redonda, amarelinha. Nem um morango vermelho, cheio de pintinhas, com uma folha verde na ponta. Tampouco penso num limão. Eu apenas memorizo as palavras – “laranja”, “morango” e “limão”. 

O motivo de se fazer isso é bem simples: dá muito trabalho pensar nas coisas em si. Dá muito trabalho formar a imagem de uma laranja em nossa cabeça, e dá ainda mais trabalho manter essa imagem por um longo período. É muito mais fácil memorizar a sequência de letras: L-A-R-A-N-J-A. 

Quando eu finalmente chegar ao supermercado, na seção de hortifrúti, direi a mim mesmo: “qual era a primeira fruta da lista? Ah, sim, era laranja”.

Então, automaticamente farei a conversão: sai a palavra “laranja”, que dá lugar à imagem da laranja. De modo que eu não procurarei por palavras, não precisarei sair, prateleira por prateleira, banca por banca, procurando pelo conjunto de caracteres “L-A-R-A-N-J-A”. Eu procurarei pela fruta que tem uma imagem que bate com aquela que tenho na minha cabeça – a imagem da laranja.

Assim, memorizar a palavra “laranja” foi muito útil, pois, no momento em que precisei fazer a conversão, voltando da palavra à coisa que ela significa, não tive maiores dificuldades. Isso só foi possível porque eu sabia o significado de uma laranja. Já havia experimentado várias laranjas, sabia do sabor, do cheiro, das variedades – laranja lima, pera, Bahia.

O caso do capim cidreira

Um caso completamente diferente ocorre quando minha esposa me pede para comprar chá. Há uma imensa variedade de chás, e eu não tenho a menor ideia do significado real de cada um daqueles nomes: capim cidreira, erva cidreira, camomila. Não faço a menor ideia se há diferença entre capim e erva cidreira, ou se são sinônimos. Para mim, todos estes termos são palavras “vazias”, nada significam. Ou ainda: para mim é tudo mato e/ou pó. 

Assim, se minha esposa me pede para comprar especificamente “erva cidreira”, eu não saberei converter tal expressão na imagem da coisa que ela significa. Precisarei, vagarosamente, ler etiqueta por etiqueta daquelas pregadas nas prateleiras do supermercado, até achar a expressão que consta da lista de compras. E aqui a chance de errar é maior. Se eu lembrar vagamente que era para comprar um chá sabor “alguma coisa cidreira”, não saberei diferenciar qual deles é o correto. Estou refém das palavras, e palavras vazias. 

E aqui vem o cerne deste artigo. Memorizar é muito importante. É uma das principais ferramentas na mão de quem se prepara para provas, exames e concursos. Mas a memorização só é bem feita se você souber o que significam as palavras que está decorando. Do contrário, ficará refém de palavras vazias, e tudo ficará muito mais difícil. 

Uma questão de prova

O que me motivou a escrever este texto foram as reclamações que recebemos nesta questão aqui, elaborada por nossa equipe de professores. O enunciado diz assim:

Julgue o item abaixo com base no Decreto nº 6.049/2007 (Regulamento Penitenciário Federal):

Para os fins deste Regulamento, entende-se como procedimento de apuração de faltas disciplinares a seqüência de fatos adotados para apurar determinado ato.

O item está errado, pois houve uma inversão nos termos. As palavras “fato” e “ato” estão escritas na ordem invertida. Consultando o art. 59 do Decreto 6049/2007, vemos que a redação correta seria: 

Art. 59. Para os fins deste Regulamento, entende-se como procedimento de apuração de faltas disciplinares a seqüência de atos adotados para apurar determinado fato.

No fórum da questão, e também por e-mail, recebemos algumas críticas. Os alunos escreveram coisas como:

  • kkkkkkk de cair a buunda da cadeira esse inversão
  • Examinador sem criatividade
  • Nessas questões de autorias próprias, dos sites de questões e cursinhos, os caras pesam demais a mão nas pegadinhas. Sinceramente nem sei se é vantagem estudar por elas. vc acaba ficando paranoico, achando que tudo tem pegadinha.
  • O trabalho que foi feito nessas questões é DESPREZÍVEL e PREGUIÇOSO !!! Vocês acham que trocando uma palavra da assertiva para torná-la errada estará contribuindo para o conhecimento de alguém????

Claro que houve também elogios à questão, mas não é deles que quero tratar agora. Quero me fixar nas críticas, pois elas revelam algo bastante curioso. 

Se a questão tivesse afirmado que determinada alíquota “x” é 7%, mas o correto fosse 5%, eu não tenho dúvida alguma de que ninguém reclamaria. E o motivo é bem simples: numa questão desse tipo, fica evidente que o cerne é verificar se o aluno decorou a alíquota. 

Isso mostra que, no fundo, o problema não é se tratar de uma questão decoreba. O problema é a questão cobrar um detalhe a que o candidato não se atentou. E por que não se atentou? Porque para ele o enunciado ali exposto é formado por palavras vazias. Se ele parasse, refletisse, e tentasse voltar das palavras aos significados, veria que a questão não é “decoreba”, de modo algum. Pelo contrário: poderia ser resolvida sem sequer abrir o tal decreto.

Um fato é qualquer evento que ocorra no mundo. Assim, o termo “fato” é algo abrangente. Já o ato é um tipo particular de fato, que é deflagrado por vontade humana. Ou seja, ato é algo mais específico. 

Suponhamos que dentro do presídio ocorra a morte de um preso. 

Neste momento, o agente público instaura um procedimento, que consistirá de uma sequência de atos. Como sabemos que são especificamente atos? Porque é algo que o agente público necessariamente quer fazer, decorre de sua vontade. Ele quer apurar, investigar, ouvir testemunhas e o que mais a norma previr. Ou seja, temos certeza de que, mais do que fatos, temos atos jurídicos. 

Quanto àquilo que está sendo apurado, nós ainda não sabemos exatamente do que se trata, até que a apuração tenha terminado. Pode-se concluir que a morte foi natural, fruto, por exemplo, de um infarto. Aí teríamos um fato natural, mas não um ato (pois não foi deflagrado por vontade humana). Ou então podemos ter um homicídio (ato ilícito). Ou seja, aquilo que está sendo apurado pode ser qualquer coisa: um fato natural, um ato jurídico lícito, um ato ilícito. Só saberemos exatamente o que é ao final da apuração.

Ou seja, como, antes da apuração, não sabemos exatamente o que ocorreu, usamos o termo mais abrangente de todos, que é fato

Juntando tudo, a redação correta só pode ser esta:

“sequência de atos para apurar determinado fato”.

A inversão dos termos deixaria a frase sem sentido. 

Conclusão

A mensagem que eu queria deixar é essa: 

Se precisar decorar, decore. Se precisar memorizar, memorize. Use mnemônicos. Mas nunca à custa de tratar com palavras vazias. Sempre busque entender o que significam as palavras que estão sendo decoradas.

Encerro este texto com a citação do livro “Educação da Vontade”, de Jules Payot:

As palavras são signos breves, cômodos, que substituem para o pensamento as coisas mesmas, sempre complexas, sempre densas, que obrigam a um esforço de pensamento tanto maior quanto mais numerosos forem os detalhes. Assim, os espíritos medíocres pensam com as palavras, coisas abstratas, mortas, de maneira que sua repercussão na vida interior é nula. Aliás, quem não vê que as palavras sucedem-se com extrema rapidez, e que dessa multidão de imagens que tendem a nascer, evocadas por elas, nenhuma torna-se clara? O resultado dessas evocações superficiais para o espírito é uma fadiga estéril, uma espécie de atordoamento produzido por essa abundância de imagens abortadas. O remédio para esse mal é ver claramente, em detalhe. 

Infelizmente, por preguiça, todos nós temos a tendência a nos rebaixarmos, a sermos o que o autor chama de “espíritos medíocres”. É uma tendência natural, quase que puxados por uma espécie de gravidade. O próprio autor, em outro trecho, diz que ele mesmo tem sua quota de palavras vazias.

Por mais que seja difícil agir contra a “preguiça generalizada”, vale muito a pena. É o preço que se paga para aprender de fato o que se estuda. O que se refletirá na sua vida como um todo. Incluindo nas questões de prova, que você passará a acertar. 

 

Vítor Menezes

Sócio-fundador do Tec Concursos. Professor de matemática, matemática financeira, estatística e lógica. Engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Dá aulas em cursos preparatórios para concursos públicos desde 2005. Classificado e aprovado nos concursos de Analista do MPU/2004, Agente e Escrivão da PF/2004, Auditor Fiscal do ICMS/MG/2004, Auditor Fiscal do ICMS/SP 2013 (Agente Fiscal de Rendas), Auditor Federal de Controle Externo do TCU 2006. Exerceu os cargos de Auditor Federal de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (período de 2006 a 2019) e Auditor Fiscal da Sefaz/MG (2005 a 2006).