Como reter o conteúdo estudado

Por: Vítor Menezes

Um problema antigo

É um problema muito comum no estudo para concursos públicos: estudamos, lemos, assistimos aulas, fazemos nossas anotações, nossos resumos, nossos mapas mentais, e temos a sensação de que estamos retendo muito menos conteúdo do que deveríamos. É o famoso “andar e não sair do lugar”.

Se o problema ocorre com você, não se assuste, ocorre com quase todo mundo. E não é de hoje: é algo que nos acompanha desde a época do colégio.

Imagine o seguinte cenário, que, apesar de hipotético, é bem realista. Um professor de ensino fundamental marca uma prova para a sexta-feira. O aluno mais dedicado irá começar a estudar na segunda-feira. Outro aluno, menos dedicado, começa a estudar na quinta. Ambos fazem a prova, tiram lá suas notas, que podem até ser boas, e, passados quinze dias do exame, os dois já terão esquecido a maior parte do que estudaram.

Quantas vezes isso não aconteceu comigo? Aposto que também aconteceu com você e com qualquer um que você conheça. E não foi uma vez, nem duas, mas várias vezes.

Isso é tão corriqueiro que eu me lembro de que, quando estava no ensino fundamental, e um professor anunciava a próxima prova, a primeira pergunta feita em sala de aula era: “professor, a matéria da prova é a partir de qual capítulo?”.

Nesta pergunta está embutido um grande acordo, mudo, silencioso, implícito, mas com que todos contam. Está pressuposto que determinado bloco da matéria, que já foi cobrado em provas anteriores, e que já foi devidamente esquecido por todos os alunos da classe, não será cobrado de novo. Ou seja, é a confirmação tácita de que tal conteúdo pode continuar completamente esquecido, sem problema algum.

Aliás, esta era uma das “belezas” da divisão do ano escolar em bimestres. Se estamos no segundo bimestre, a matéria a ser cobrada na prova é só a atual; aquela do bimestre anterior não será novamente cobrada, porque já o foi na prova passada. O próprio ritmo escolar corrobora o nosso ciclo de “estuda – esquece – estuda – esquece”.

Depois isso continuou se repetindo na época do ensino médio, do vestibular, e também nas provas da faculdade. Cansamos de estudar às vésperas das provas, e também cansamos de, poucos dias depois, novamente tudo esquecer.

O problema é que, quando se trata de estudos para concursos públicos, a concorrência é muito mais forte que era na época do vestibular, a quantidade de matérias é muito maior, e o que está em jogo não é tão somente uma nota ou um diploma, mas a conquista de um cargo público, com bom salário e a tão buscada estabilidade. O que está em jogo é mudar de vida. Ou seja, não dá mais para levar as coisas como levávamos na faculdade ou na escola.

Um exemplo retirado do futebol

Bem, até aqui eu apenas enfatizei a existência do problema, mas não comecei a responder à questão inicialmente proposta: afinal, como estudar sem esquecer o conteúdo?

Elaborei a resposta em dois formatos: em texto, por meio deste artigo, e em vídeo, e você escolhe a que preferir.

A resposta ao problema será dada por partes, e hoje trataremos de apenas uma delas. Para tanto, gostaria de trabalhar com o exemplo do futebol.

O futebol é o esporte mais conhecido no Brasil, e também o mais praticado. Ele quebra todas as fronteiras: ricos e pobres, analfabetos e pós-graduados, crianças e idosos, todos jogam futebol, todos assistem futebol. É um esporte extremamente simples – basta uma bola, meia dúzia de garotos e um terreno mais ou menos plano e pronto! Com duas varetas faz-se o gol, ou com duas sandálias. De modo que todo brasileiro sabe o que é o futebol, e conhece ao menos as principais regras.

Para o nosso exemplo, vamos imaginar o caso de um homem, digamos, Roberto, que assista futebol todas as semanas. Suponha que ele assista futebol às quartas e domingos, sendo um jogo na quarta e dois no domingo. Suponha ainda que haja transmissão de partidas, em média, durante 45 semanas por ano. E que em cada partida haja, em média, 10 impedimentos.

Juntando tudo, a cada ano Roberto terá visto, na sua frente, 3 x 45 x 10 = 1.350 impedimentos. Cada um deles devidamente explicado pelo narrador ou pelo comentarista esportivo.

Imagine agora o exemplo de uma segunda pessoa, um habitante de um país longínquo, isolado, em que ninguém jamais assista ou jogue futebol. Este sujeito nunca viu uma partida de futebol, não tem a menor ideia do que se trate. Desconhece completamente termos como “escanteio”, “lateral”, “tiro de meta”, “gol”. Esta pessoa planeja uma viagem ao Brasil e, descobrindo que aqui todos gostam de um esporte chamado futebol, decide aprender um pouco a respeito. Para tanto, compra alguns livros, e inicia seus estudos por um livro que traz as regras do esporte.

Suponha ainda que o tal livro traga as regras abaixo, as quais eu extraí do wikipedia:

Em linhas gerais, para que um jogador esteja impedido, duas condições precisam ser satisfeitas simultaneamente:

Ele precisa estar em posição de impedimento; e
Ele precisa interferir na jogada em curso.
A posição de impedimento (ou fora de jogo)

O atacante vermelho na esquerda do diagrama está impedido (fora de jogo) por estar mais próximo da linha de fundo que o penúltimo defensor (marcado pela linha pontilhada) e também da bola.
A posição de impedimento depende dela própria de cinco condições para se configurar.

Um jogador estará em posição de impedimento somente se[3]:

Condição 1: Um companheiro de sua própria equipe está tocando a bola enquanto executa um passe, uma cabeçada ou um chute a gol; e
Condição 2: O referido passe não é uma cobrança de escanteio, um tiro de meta ou uma cobrança de lateral;
Condição 3: O jogador está no campo de ataque; e
Condição 4: O jogador está mais próximo da linha de fundo adversária do que a própria bola;
Condição 5: Um ou nenhum adversário está mais próximo da linha de fundo adversária do que o jogador.
Para efeito da quinta condição, as partes do corpo que contam para determinar se alguém está ou não mais à frente são apenas aquelas usadas por jogadores de linha para tocar a bola – apenas braços e mãos não contam.[4]

Como já foi dito, quando todas essas cinco condições acontecerem juntas, o auxiliar tem obrigação de sinalizar a posição de impedimento para o árbitro erguendo sua bandeira.

Interferência na jogada
O simples fato de o jogador estar em posição de impedimento não implica a marcação automática da infração. O árbitro só deve apitar tiro livre indireto, paralisando o jogo, quando o jogador interferir ativamente com a jogada em curso porque uma das três condições abaixo se cumprir[5]:

Condição 1: O jogador participa ativamente da jogada – ao receber um passe ou tocar a bola, mesmo involuntariamente; ou
Condição 2: O jogador obtém vantagem de sua posição – ao aproveitar um rebote direto do chute, ou
Condição 3: O jogador atrapalha ativamente um adversário – porque obstrui sua visão, impede seus movimentos, ou o engana com uma finta de corpo, ou até mesmo deslocando a marcação .

https://pt.wikipedia.org/wiki/Impedimento_(futebol)

Certamente esse habitante do país longínquo, mesmo após grande esforço, mesmo que se dedique a fazer resumos, mapas mentais e flash cards, terá muita dificuldade em reter algo do que está aí acima. Para começo de conversa, as próprias palavras que formam as frases lhe são completamente desconhecidas. Ele não sabe o que é um gol, um lateral, um escanteio ou um tiro de meta. A leitura de cada frase precisaria ser interrompida para que ele pesquise o significado das palavras, sob pena de não entender exatamente o significado de cada frase.

Em contrapartida, caso o Roberto fosse estudar tais regras, bastar-lhe-ia uma leitura pausada para absorver grande parte do conteúdo. Ao passar os olhos por toda e cada uma das condições ali expostas no livro de regras do futebol, lembrar-se-ia dos casos concretos: “hum… deixa eu pensar…. esta situação ocorreu no jogo do Flamengo; esta outra, no jogo do Palmeiras; aquela, no jogo do Barcelona”.

O Roberto certamente já viu situações concretas que ilustram cada uma daquelas inúmeras condições de impedimento listadas na regra, de modo que o conteúdo teórico lhe parecerá muito tranquilo, muito fácil de ser apreendido.

Assim, estamos diante de dois casos opostos:

  • para o Roberto, a compreensão e a apreensão do conteúdo será fácil e tranquila
  • para o habitante do país longínquo, tratar-se-á de um trabalho árduo e com grande chance de insucesso.

E qual a diferença entre ambos? Por que isso ocorre?

O pulo do gato

Acima vimos que o Roberto leva vantagem, e chegou a hora de entender por que isso ocorre. A resposta passa por vários pontos, e hoje vamos tratar tão somente de um deles. Os demais ficam para o próximo artigo.

O “x” da questão é que nosso intelecto não é preparado para lidar com um grande volume de informações novas de uma vez. Precisamos sempre pegar um conteúdo grande, quebrar em pedacinhos bem pequenos, analisar cada pedacinho individualmente, devagar, e só depois de passados vários dias, meses e anos, ir formando gradualmente a visão de conjunto.

Em síntese, o segredo é estudar pouco, mas estudar todo dia. O segredo é a constância, o ritmo, a persistência. Não adianta querer se entupir de conteúdo às vésperas da prova, que tudo aquilo será perdido em pouco tempo.

No exemplo trabalhado neste artigo, enquanto o habitante do país longínquo tentou absorver toda a informação de uma vez só, o Roberto recebeu a mesma informação de modo granularizado, ao longo de um ano inteiro, vendo um caso por vez, um a um, até passar por todo os cenários de aplicação de cada uma daquelas regras. E este é um dos motivos pelos quais ele leva vantagem. Caso ele decidisse estudar as regras do impedimento, provavelmente as compreenderia todas, facilmente, e não as esqueceria.

O segredo é estudar pouco, mas todo dia!!!

Claro que, se você dispõe de muito tempo livre, digamos, de 5 horas por dia para os estudos, é claro que você não deve desperdiçar isso. Basta organizar seu tempo. Separe 1 hora do seu tempo, ou no máximo 2 horas, para conteúdo novo, e reserve o restante para revisar ou se aprofundar em temas com os quais você já teve contato. Exatamente como se faz isso, fica para outro artigo. Mas por hora o que importa é que você memorize que, quando se trata de adquirir conhecimento novo, devemos ir devagar, um pouco por dia, todo dia.

Duas observações finais, só para garantir

Para encerrar, queria chamar a atenção para alguns aspectos.

(1) No exemplo acima, em que Roberto levou vantagem, a bagagem dele vem de assistir jogos pela TV. Com isso não estou enaltecendo a televisão, não estou dizendo que se trate de uma fonte confiável de informações, muito menos de uma fonte legítima para estudos. Roberto levou vantagem apesar da TV.

(2) Tampouco estou querendo dizer que o estudo para concursos é algo tão natural e espontâneo quanto sentar no sofá para ver televisão. Não, o estudo sério exige muito esforço e dedicação. Limite-se a sentar no sofá para assistir videoaulas e você certamente será reprovado. Aliás, Roberto nem estava propriamente estudando, sim matando o tempo, fazendo algo de que gosta em seu tempo livre. Ocorre que, acidentalmente, ao matar seu tempo, recebeu informações de modo “granularizado”, um pouco por dia, e isso no fim das contas o ajudou, apesar de ele não estar estudando.

Um convite

Como veremos nos próximos artigos, grande parte de uma excelente estratégia de estudos envolve o uso inteligente de questões de provas anteriores. Falaremos disso com calma, e você entenderá direitinho como se aproveitar da melhor plataforma hoje existente no mercado, a do Tec Concursos.

Então já deixo o convite desde agora. Caso ainda não seja nosso aluno, cadastre-se gratuitamente, neste link abaixo, e aproveite o nosso plano gratuito. Mesmo sendo grátis, já é muito superior a muitos produtos pagos de outros concorrentes, e já será muito útil na sua preparação.

Vítor Menezes

Sócio-fundador do Tec Concursos. Professor de matemática, matemática financeira, estatística e lógica. Engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Dá aulas em cursos preparatórios para concursos públicos desde 2005. Classificado e aprovado nos concursos de Analista do MPU/2004, Agente e Escrivão da PF/2004, Auditor Fiscal do ICMS/MG/2004, Auditor Fiscal do ICMS/SP 2013 (Agente Fiscal de Rendas), Auditor Federal de Controle Externo do TCU 2006. Exerceu os cargos de Auditor Federal de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (período de 2006 a 2019) e Auditor Fiscal da Sefaz/MG (2005 a 2006).