Como reter o conteúdo estudado (parte 3)

Por: Vítor Menezes

Olá, após uma longa pausa, retomo a nossa série sobre estudos.

Para quem quiser ver o conteúdo em vídeo, segue:

Agora vamos ao resumo do que foi dito no vídeo!

Como o homem conhece

O homem é um animal racional. Ou seja, a definição daquilo que nós somos depende de duas partículas – “animal” e “racional” – e entender cada uma delas, separadamente, nos ajudará a compreender como nossa natureza funciona.

Iniciando com a partícula “animal“. Um animal é um ser vivente que apresenta conhecimento sensitivo, ou seja, que dispõe de sentidos externos que lhe permitem conhecer a realidade que o cerca.

Uma pedra não é vivente, não tem como conhecer nada do que se passa ao seu redor. Mesmo uma árvore, vivente, não tem sentidos externos, também não lhe cabe conhecer coisa alguma. Se um pássaro está cantando em seus galhos, ela jamais o ouvirá.

Para que um animal possa conhecer a realidade que o cerca, há dois tipos de sentidos: os externos e os internos. Para melhor compreensão, podemos fazer uma analogia com o computador. É evidente que o computador não é um ser vivente, não conhece de fato, e que expressões como “inteligência artificial” devem ser entendidas num sentido apenas metafórico. Mesmo assim, a comparação pode ajudar.

Um computador apresenta periféricos, como teclado, microfone, mouse. São itens que permitem à máquina se comunicar com o mundo exterior. Uma vez que o computador capte informações vindas de fora, precisa tratá-las dentro de si, e para isso dispõe de memória, processador etc.

Analogamente, os periféricos dos animais são os sentidos externos, aqueles que os colocam em contato com o mundo exterior. Nos animais inferiores, há ao menos o sentido do tato. Quanto mais subimos na hierarquia dos seres, mais sentidos observamos, até chegarmos aos animais superiores, como o caso do cachorro, que apresenta todos os cinco sentidos externos (visão, audição, tato, paladar, olfato).

Uma vez que o animal recebe as informações de fora, precisa tratá-las, e para isso há os sentidos internos: sentido comum, imaginação, estimativa (ou cogitativa, caso se trate de um humano) e memória.

O sentido comum é responsável por unificar as informações provenientes dos vários sentidos externos, formando uma única imagem. Assim, tal sentido irá indicar que aquele miado que eu ouvi, e que aquele cheiro que eu senti, e que aquela informação visual referente a um bicho peludo de orelhas pontudas que eu vi, que tudo isso provém de uma mesma fonte de informações, de um mesmo ente, ao qual chamamos gato.

Unificadas todas as informações, é formada uma “imagem” daquele gato específico que está na minha frente. Quando eu digo “imagem”, não pense apenas na informação visual; tal imagem terá informações sobre o cheiro, caso eu tenha sentido cheiro; terá som, caso eu tenha ouvido um miado; terá a maciez do pelo do gato, caso eu o tenha tocado.

Esta imagem sensível é armazenada na imaginação, e arquivada. Em seguida, a cogitativa/estimativa irá, partindo das várias imagens de gato que eu já tenha arquivado anteriormente, formar uma imagem superior, chamada de fantasma. Este fantasma representa todos os gatos que eu já vi pela frente. Representa todos, e ao mesmo tempo não representa nenhum em particular.

Mudemos de exemplo.

Esqueça o gato. Por favor, pense numa banana.

Durante sua vida, você já viu e comeu vários tipos de banana: banana prata, banana maçã, banana terra, banana ouro, banana nanica, banana madura, banana verde. Mas, quando eu pedi que você pensasse numa banana, veio à sua mente uma imagem genérica de banana, que representa todas essas com as quais você já teve contato. Isso é o fantasma, que será em seguida armazenado na memória.

Nos animais superiores, como um cachorro, paramos por aqui. A estimativa (no homem, chamada de cogitativa) é sua parte mais nobre. É o sentido que lhe permite fazer inúmeras associações e correlações. No cachorro isso é intenso, motivo pelo qual é possível adestrá-lo com bastante facilidade.

Mas no homem o processo continua. Vimos que o homem é um “animal racional”. Até aqui tratamos de sua parte animal; chegou a hora de ver a parte racional.

O fantasma, a que acima nos referimos, é apresentado ao intelecto, para que este possa extrair conceitos, definições, proposições, e possa construir argumentos ou raciocínios.

Esse conhecimento final é dito abstrato. Ele parte das coisas concretas – este gato, aquela banana – e termina em algo que está para além das aparências sensíveis, retirando a essência das coisas.

Por exemplo, o conceito que vimos de homem – “animal racional” – é um claro exemplo de conceito abstrato. Para chegar a ele, precisamos conhecer vários e vários seres humanos concretos. Mas, feito todo o processo, e extraída a essência do ser humano – animal racional – obtemos uma definição que em si mesma independe de quais homens em concreto nós conhecemos. Pouco importa se só tivemos contato com homens pretos, amarelos, brancos, anões, idosos, jovens. Nós partimos do concreto, mas a definição final é abstrata. Só o homem é capaz disso, nenhum outro animal o faz. Os animais irracionais se limitam a conhecer a aparência sensível das coisas; só nós podemos ir além, abstraindo a essência que há em cada ente.

Então veja que, no homem, todo o processo deve ser conduzido de tal modo a favorecer justamente o ato da razão, sua faculdade mais nobre. Se o processo é desvirtuado, tirado dos seus trilhos, de modo a prejudicar o ato da razão, o resultado final é que não conheceremos a realidade que nos cerca, ao menos não nos seus aspectos essenciais.

O mau uso de televisão, redes sociais, e serviços de streaming.

Vamos começar com a televisão, e depois vamos estender para os demais casos.

Para que o sentido comum possa bem desempenhar seu papel, é necessário que o contato com a realidade, ou com o assunto que estamos estudando, seja cadenciado, ordenado. Os fenômenos naturais passíveis de se acompanhar a olho nu geralmente levam tempo, e têm certa regularidade. Os dias e as noites se sucedem vagarosamente. Idem para o passar dos anos, e para a sequência das estações. Tudo acontece de modo que tenhamos tempo de nos acostumar à variação, para analisá-la com calma.

Mesmo fenômenos rápidos, como um relâmpago numa tempestade, têm seus padrões, ocorrem em momentos mais ou menos esperados, em situações mais ou menos previsíveis. Quando começa a chover, talvez o primeiro relâmpago seja imprevisto, mas ele dá o sinal para a possível cadeia de relâmpagos que lhe sucederá. Muitas vezes eles começam distantes, vão se aproximando, junto com o movimento da tempestade, e depois se afastam. Não esperamos ver um relâmpago ou ouvir um trovão num dia claro de sol forte, sem nuvens.

Outro exemplo, agora saindo dos fenômenos naturais e indo para os estudos. Ao estudarmos um assunto novo, em um livro, às vezes avançamos páginas, às vezes retrocedemos, lemos e relemos, nos indagamos, cadenciadamente, para digerir o que está sendo lido. Anotamos, circulamos, debatemos com outras pessoas, de modo a realmente compreender o que está sendo explicado.

Nada semelhante a isso ocorre na televisão. Há uma sucessão incrivelmente rápida de imagens, muitas vezes desconexas, que não nos dá tempo hábil para captar o que está de fato ocorrendo. Não conseguimos fixar o olhar. Os assuntos mudam com uma velocidade impressionante. Em dado momento estamos vendo um telejornal, que é abruptamente interrompido por propagandas. Cada propaganda tem um tema completamente diferente. Depois é retomado o telejornal, com notícias sem conexão alguma umas com as outras. Ao telejornal segue uma telenovela, com uma sequência de cenas que não espelha realmente a realidade, mas muitas vezes a agride frontalmente. E assim vai.

Num cenário destes, como meu sentido comum será capaz de, calmamente, processar as informações que vêm de fora?

Simplesmente não será capaz de fazê-lo. Não de modo bem feito.

Isso comprometerá as imagens armazenadas na imaginação. Por tabela, comprometerá a ação da cogitativa. Prejudicará a memória. Por fim, prejudicará completamente o ato da razão.

Meu intelecto jamais será capaz de conhecer algo de fato, porque está atuando sobre fantasmas corrompidos. No máximo, será baseado em impressões difusas, sem fundamento sólido. Será baseado em crenças vazias; e, pior, depois de um tempo ele nem mais notará o problema, pois este meio vicioso será o ar que respira, a água de que todos os dias bebe.

Mesmo que a sucessão de imagens fosse mais lenta, resta o fato de serem desconexas. Quando me ponho a estudar temas que guardam correlação entre si, intensifico meu poder de captação e análise, potencializo a memória. Ser exposto a temas completamente desconexos contribui para a “desmemória”, a perda de capacidade de reter informações importantes.

Por fim, se há alguma conexão entre tudo o que é apresentado na TV, podemos dizer que é seu caráter de frivolidade. Tudo é vão. Mesmo assuntos em si mesmos importantes, como acontecimentos políticos, são transformados quase que num enredo de filme ou novela, pois o objetivo, no fim das contas, é manter a audiência curiosa, pouco importando a realidade dos fatos.

Ora, nosso intelecto não consegue se dividir, dando atenção simultânea a várias coisas. Nossa atenção é una. Assim, cabe-nos hierarquizar o saber, dedicando mais tempo às coisas realmente importantes, e menos tempo às menos importantes. Nesta cadeia hierárquica, as frivolidades não ocupam lugar algum, simplesmente não devem ser conhecidas. Consumir televisão é alimentar nosso intelecto justamente daquilo que ele não deveria comer; se nossa inteligência precisa de alimento, assistir a televisão é dar-lhe um fast food extremamente tóxico.

No caso da televisão, é mais difícil fazer um bom uso, porque não temos controle algum do fluxo de informações, e a preocupação das emissoras não é dar a conhecer a realidade, sim instigar a curiosidade vã, de modo a ganhar e manter a audiência. Dá para fazer um uso bom? Creio que sim. No vídeo acima eu disse que “não”, mas, enquanto escrevo, comecei a pensar em casos particulares de um bom uso. Como quer que seja, é evidente a dificuldade de nos restringirmos ao uso ordenado.

Já no caso de serviços de streaming, há a vantagem de termos o poder de escolher aquilo que veremos. Mesmo assim, a chance de descambar para as frivolidades é alta.

Façamos uma analogia. Todos sabem que consumir açúcares e gordura em excesso faz mal para saúde. E claro que consumi-los de vez em quando, numa festa por exemplo, não terá maiores consequências. Mesmo assim, é muito comum fazermos a exceção virar a regra, e adiarmos a dieta para a segunda-feira da semana que vem.

Algo similar ocorre no mundo intelectual. Comer o alimento intelectual correto, por exemplo, lendo um bom livro sobre um tema relevante, é saudável, mas não dá o prazer imediato, que em contrapartida pode ser obtido com a satisfação de uma curiosidade vã.

Deste modo, assim como no comer é difícil não passar do ponto, e sempre teremos a tendência a comer não para nos alimentar, mas para satisfazer a uma compulsão momentânea, assim também nosso conhecer facilmente descamba para as inutilidades ou para o conhecimento “rápido”, “fácil” e superficial do que quer que seja – o que fatalmente será um conhecimento errôneo. Este é o risco do streaming. Dá para ser bem usado? Dá! É fácil fazer bom uso? Definitivamente, não!

O mesmo pode ser dito das redes sociais. Por exemplo, no canal do Youtube do Tec Concursos, te damos um tratamento de ser humano racional que você é. Lá você terá playlists organizadas por matéria, em que exaurimos cada uma delas, numa sequência lógica e didática, que te permite de fato estudar. Quem segue uma daquelas playlists está fazendo um uso ordenado da rede social. Nesse caso, tranquilo gastar muito tempo do seu dia na rede social, porque o uso é ordenado, é compatível com o funcionamento da sua razão.

Contudo, infelizmente, a maior parte das pessoas gastará de fato seu dia movimentando repetidamente o dedo polegar para cima e para baixo, rodando o feed do Instagram, numa curiosidade vã e sem fim, conhecendo tudo e ao mesmo tempo sem conhecer nada de fato. Esse é o uso desordenado da rede social, e é muito fácil cair nele.

Obs: voltando ao youtube, qualquer canal acaba sendo levado a permitir a inserção de propagandas, sob pena da plataforma não dar visibilidade alguma ao conteúdo ali exposto. Se você faz uso frequente do Youtube para finalidade de estudos, vale muito a pena fazer a assinatura do serviço premium que eles disponibilizam, que por sua vez inibe toda e qualquer publicidade.

Conclusão

Para melhorar definitivamente sua vida de estudos, e isso vale não só para o estudo relativo a concursos públicos, mas para toda sua vida intelectual, corte televisão, ou pelo menos restrinja seu uso. Lembre-se de que você é um ser racional, e de que o intelecto é sua parte mais nobre. Consumir televisão de forma demasiada é envenenar o que de mais valioso você tem.

Quanto a redes sociais e serviços de streaming, mesma coisa, faça um uso bem moderado, com boa escolha do conteúdo, sabendo que o risco de descambar para futilidades é bem alto.

Com estes passos, além de tudo, você libera um monte de tempo livre, tempo novo, que antes era perdido rolando o dedo polegar pelo feed do Instagram.

Gaste esse tempo se dedicando a mastigar, ruminar, digerir o conteúdo que você de fato quer aprender. De forma cadenciada, ordenada, concatenada.

Se for absolutamente inevitável interromper o consumo de redes sociais, reserve um pequeno período do seu dia, digamos, 10 minutos, após o término dos estudos, para ver o que há de novidades. Use esses dez minutos para verificar se foi autorizado tal concurso, se foi contratada tal banca, etc. Isso é perfeitamente válido. Mas que sejam só os 10 minutos que você estipulou previamente, e que se deem só depois de você ter encerrado a jornada de estudos do dia. Do contrário, a chance desses 10 minutos virarem 1 hora é muito alta. E aí seu dia terá sido perdido, mais um dia perdido.

Bibliografia.

Para escrever esse conteúdo, as duas principais fontes consultadas foram:

a) este livro: Televisão, um fast food envenenado para a alma, autor Marcelo Andrade.

b) este artigo: Como o homem conhece, autor Carlos Nougué

Vítor Menezes

Sócio-fundador do Tec Concursos. Professor de matemática, matemática financeira, estatística e lógica. Engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Dá aulas em cursos preparatórios para concursos públicos desde 2005. Classificado e aprovado nos concursos de Analista do MPU/2004, Agente e Escrivão da PF/2004, Auditor Fiscal do ICMS/MG/2004, Auditor Fiscal do ICMS/SP 2013 (Agente Fiscal de Rendas), Auditor Federal de Controle Externo do TCU 2006. Exerceu os cargos de Auditor Federal de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (período de 2006 a 2019) e Auditor Fiscal da Sefaz/MG (2005 a 2006). Contato: vitor@tecconcursos.com.br