Como reter o conteúdo estudado (parte 2)

Por: Vítor Menezes

Antes de mais nada, vale a pena relembrar que há alguns dias escrevi um primeiro artigo sobre este assunto, o qual pode ser visto aqui:

E informo que, para quem preferir, o conteúdo do artigo de hoje também está no formato de vídeo, disponível no canal do Tech Concursos no Youtube:

Hoje daremos continuidade ao tema. E vamos começar com o …

Exemplo da visão humana

Inicio com uma pergunta: qual é o objeto próprio da visão?

Sobre o que ela atua?

Resposta: o objeto próprio da visão é a cor.

É por meio da cor que identificamos o formato e o tamanho dos objetos, é por meio da cor que percebemos se eles estão em movimento ou se estão parados, e assim por diante.

Exemplificando, se pintarmos um círculo azul sobre uma tela branca, veremos perfeitamente o círculo porque sua cor destoa da cor da tela.

Contudo, se pintarmos um círculo azul sobre uma tela também azul, e se ambos os azuis forem exatamente iguais, não veremos qualquer círculo, ainda que ele esteja lá. E não o veremos porque não conseguimos perceber a diferença de cor.

Algo similar ocorre quando estamos numa sala fechada, sem frestas, com a luz apagada. Embora a sala esteja repleta de coisas, não veremos nenhuma delas, porque só enxergaremos o preto.

Assim, fica comprovado que o objeto próprio da visão é a cor.

Além disso, note que a visão tem um modo próprio de funcionar. Eu até consigo, com meu intelecto, influenciar em algumas coisas: consigo abrir ou fechar as pálpebras, consigo direcionar o olhar para este ou para aquele lugar.

Mas, uma vez levantadas as pálpebras, uma vez direcionado o olhar, não tenho como mandar que meu olho enxergue só os tons de amarelo. Ou que não enxergue o tom azul. Isso é impossível, o funcionamento da visão é “automático”, no sentido de que não sofre influxo do intelecto.

Algo similar ocorre com outras faculdades, como é o caso da digestiva. Uma vez engolido determinado alimento, não tenho mais controle sobre o processo digestivo. Não tenho como ordenar ao meu estômago que trabalhe mais rapidamente, ou mais lentamente, nem como ordenar ao meu intestino que não faça a digestão de determinado tipo de alimento.

Já outras faculdades humanas podem ser diretamente regidas pelo intelecto. É o caso da fala: tudo que eu digo recebe o influxo do intelecto. Eu preciso querer falar e pensar no que vou falar para poder falar.

Muito bem, então temos uma faculdade superior, que consegue reger várias das faculdades interiores. Várias, mas não todas. Esta faculdade é a inteligência. Então seria uma boa ter uma noção geral de como ela funciona.

Caso do intelecto humano

Vimos que o objeto próprio da visão é a cor.

Pergunta: e qual é o objeto próprio do intelecto humano?

Resposta: é a essência das coisas sensíveis.

Coisas sensíveis são aquelas que conseguimos ver, tocar, cheirar, degustar, ouvir, enfim, são aquelas que se nos apresentam aos sentidos externos.

Todas as informações que nos chegam pelos sentidos externos serão usadas para alimentar os sentidos internos – imaginação, memória, senso comum e cogitativa. Estes sentidos internos formarão uma imagem sensível, também chamada de fantasma.

Assim, quando ouvimos a palavra “banana”, puxamos em nossa mente uma imagem de banana. Essa imagem representa todas as bananas `às quais já tivemos acesso: banana nanica, banana prata, banana terra, banana maçã, banana madura, banana verde, banana podre. Todas essas bananas estão condensadas na imagem de banana.

Então nosso intelecto se dirige à imagem sensível e abstrai, e retira de lá a essência, o conceito de banana, aquilo que faz com que uma banana seja banana.

É claro que esse processo não é automático e nem simples.

Para fazê-lo com perfeição e acerca de muitas coisas, só mesmo os grandes sábios, que estudaram anos para consegui-lo. A maioria dos homens conhece de algum modo, mais limitado, mas conhece. A maioria dos homens talvez sequer saiba definir banana, embora a saiba reconhecer.

Podemos fazer uma analogia com a faculdade motora. Todo ser humano saudável tem potência para, durante sua juventude, se tornar um maratonista. Contudo, pouquíssimos de fato se tornam maratonistas. A imensa maioria se restringirá aos movimentos mais simples do dia a dia – ao simples caminhar, por exemplo.

Assim como todos temos potência para nos tornarmos maratonistas, mas poucos de fato se tornam, assim também todos temos potência para conhecer profundamente vários dos seres que nos cercam, mas poucos de fato o fazem.

Ainda assim, esse esquema é bem útil por mostrar que todo o conhecimento humano parte das coisas sensíveis, mas não se limita a elas. Vejamos um exemplo.

Pergunta: Qual a essência de homem? O que é que faz com que um homem, um ser humano, possa ser chamado de “ser humano”?

Resposta: a essência do homem é “animal racional”.

É isso que torna alguém humano.

Imagine um filósofo vivendo há dois mil anos, na África. Naquela época não havia internet, nem jornal, nem celular e nem TV. Não é impossível que tal filósofo só tivesse visto, em sua frente, homens, mulheres e crianças negras. A imagem sensível de ser humano que ele tem dentro de si é a imagem de uma pessoa negra. Mesmo assim, se ele for um bom filósofo, chegará ao conceito “animal racional”, e não “animal racional negro“. Ficará bem claro para ele que a cor a pele é meramente acidental. Ainda que todos os homens fossem negros, não é a cor de pele algo essencial para definir um ser humano.

Analogamente, se um bom filósofo, vivendo há 2.000 anos na Ásia, só tivesse visto homens amarelos, seu conceito de ser humano também será “animal racional”, nunca “animal racional amarelo“.

Onde quero chegar?

Estou querendo dizer que nós partimos daquilo que é sensitivo, mas não paramos por aí; conseguimos mergulhar nas coisas, por baixo das aparências sensíveis, e extrair dali o que é essencial.

Nosso esquema ficaria desse jeito:

Coisa sensível ===> sentidos externos ===> sentidos internos ==> imagem sensível ==> abstração ==> conceito

E daí?

Certo Vítor, entendi todas essas coisas, mas e daí? Como isso pode afetar meus estudos?

Acima deixamos bem claro que o ser humano, por ter uma alma racional, é sim preparado para lidar com conceitos abstratos, exatamente como é o caso do igualmente abstrato conceito de “animal racional”. Isso é algo abstrato e universal.

Mas…

Mas sempre precisamos partir do concreto e sensitivo.

É assim que a gente funciona. É desse jeito que fomos programados para funcionar.

Um dos grandes problemas no estudo para concursos é que a pessoa começa a tratar de um tema que ela nunca viu na vida, para o qual ela não tem qualquer experiência concreta, não tem a menor vivência de nada remotamente parecido, e então passa a lidar tão somente com conceitos abstratos que para ela nada significam.

Voltando ao exemplo do futebol

No artigo anterior trabalhamos com o caso do Roberto, que assiste futebol toda semana e que, por ano, vê mais de 1.000 impedimentos na sua frente.

Vimos também o exemplo de um cidadão de um país longínquo e isolado, que nunca viu futebol em sua vida e que, por uma série de circunstâncias, decide aprender o esporte por meio da leitura de um livro contendo as regras do futebol.

Em seguida, analisamos o que ocorreria se ambos se pusessem a estudar as regras do impedimento. Lembram-se delas? Vou repetir aqui:

Em linhas gerais, para que um jogador esteja impedido, duas condições precisam ser satisfeitas simultaneamente:

a) Ele precisa estar em posição de impedimento; e

b) Ele precisa interferir na jogada em curso.

Um jogador estará em posição de impedimento somente se:

Condição 1: Um companheiro de sua própria equipe está tocando a bola enquanto executa um passe, uma cabeçada ou um chute a gol; e

Condição 2: O referido passe não é uma cobrança de escanteio, um tiro de meta ou uma cobrança de lateral;

Condição 3: O jogador está no campo de ataque; e

Condição 4: O jogador está mais próximo da linha de fundo adversária do que a própria bola;

Condição 5: Um ou nenhum adversário está mais próximo da linha de fundo adversária do que o jogador.

Para efeito da quinta condição, as partes do corpo que contam para determinar se alguém está ou não mais à frente são apenas aquelas usadas por jogadores de linha para tocar a bola – apenas braços e mãos não contam.

Como já foi dito, quando todas essas cinco condições acontecerem juntas, o auxiliar tem obrigação de sinalizar a posição de impedimento para o árbitro erguendo sua bandeira.

Interferência na jogada

O simples fato de o jogador estar em posição de impedimento não implica a marcação automática da infração. O árbitro só deve apitar tiro livre indireto, paralisando o jogo, quando o jogador interferir ativamente com a jogada em curso porque uma das três condições abaixo se cumprir:

Condição 1: O jogador participa ativamente da jogada – ao receber um passe ou tocar a bola, mesmo involuntariamente; ou

Condição 2: O jogador obtém vantagem de sua posição – ao aproveitar um rebote direto do chute, ou

Condição 3: O jogador atrapalha ativamente um adversário – porque obstrui sua visão, impede seus movimentos, ou o engana com uma finta de corpo, ou até mesmo deslocando a marcação .

https://pt.wikipedia.org/wiki/Impedimento_(futebol)

Imagine uma pessoa que nunca viu uma partida de futebol, que não tem a menor ideia do que seja escanteio, lateral, tiro de meta, linha de fundo, imagine uma tal pessoa lendo estas regras. Ela simplesmente nada entenderá. Nada conseguirá reter.

Ao ler a palavra “escanteio”, que, em sua mente não corresponde a nenhuma imagem sensível, ela precisará ver a definição desse termo. Suponha que encontre, num dicionário, uma explicação assim:

Escanteio: situação de reposição de bola feita a partir do corner do campo de ataque. Ocorre quando a bola sai pela linha de fundo, após ter tocado, por último, um jogador que defende tal linha.

Muito bem, agora esse cidadão teria que parar para pesquisar o que é uma linha de fundo.

E a coisa não termina nunca.

Seria infinitamente mais fácil se ele parasse tudo e simplesmente assistisse uma partida de futebol. Então ele veria um escanteio em sua frente. Veria uma linha de fundo e veria um impedimento. Só assim, tendo experiência concreta de coisas sensíveis, ele terá alguma referência em torno da qual poderá girar os conceitos abstratos constantes das normas.

Este é outro dos motivos pelos quais o Roberto, que usamos em nosso exemplo, terá muito mais facilidade para compreender e gravar as regras referentes ao impedimento. Pois ele parte da experiência sensível, afinal de contas, está acostumado a ver vários tipos de impedimento na sua frente, o tempo todo.

Concluindo

Vamos finalmente ver a parte prática dos nossos estudos?

Sempre que você for iniciar uma disciplina nova, procure autores e professores que façam a ponte daqueles conceitos abstratos com coisas que são comuns no nosso dia a dia, e para as quais a gente já tenha a experiência sensível. Se isso não for possível, por se tratar de algo muito atípico, que ao menos se faça uma analogia, uma comparação, para que tenhamos algo concreto de que partir. Fuja de autores e professores que ficam só falando em coisas abstratas e longínquas.

Trabalhar diretamente com conceitos abstratos que não se referem a nada que já conheçamos é extremamente árduo, para não dizer impossível, pois vai contra o funcionamento normal de nosso ser.

Quando o material didático não fizer isso, procure você mesmo fazê-lo. Procure sempre a ponte entre aquilo que está sendo estudado e as coisas reais às quais ele se refere. Não existe forma mais apropriada de realmente compreender e gravar aquilo que se estuda.

No fundo, vejam que a mensagem que dei é algo até bem evidente. Mas, espero, com toda a explicação que veio antes, agora você tenha condições de entender muito bem a importância dessa dica, e assim incorporá-la definitivamente em sua rotina de estudos.

Vítor Menezes

Sócio-fundador do Tec Concursos. Professor de matemática, matemática financeira, estatística e lógica. Engenheiro eletrônico pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica. Dá aulas em cursos preparatórios para concursos públicos desde 2005. Classificado e aprovado nos concursos de Analista do MPU/2004, Agente e Escrivão da PF/2004, Auditor Fiscal do ICMS/MG/2004, Auditor Fiscal do ICMS/SP 2013 (Agente Fiscal de Rendas), Auditor Federal de Controle Externo do TCU 2006. Exerceu os cargos de Auditor Federal de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (período de 2006 a 2019) e Auditor Fiscal da Sefaz/MG (2005 a 2006). Contato: vitor@tecconcursos.com.br