A Batalha do Candidato

Por: Orlando


Com
o emprego formal globalizado sofrendo ameaças crescentes, torna-se cada vez
mais atraente a investidura em cargo ou emprego público, mediante a aprovação
em concurso, requisito obrigatório, pelos termos do artigo 37, inciso II da
Constituição atual. Essa atração, entretanto, vem transformando os concursos
públicos em verdadeiras batalhas, para as quais o candidato deve estar
preparado, de modo a não sofrer grandes e dolorosas derrotas.

No
clássico “A Arte da Guerra”, Sun Tzu
prevê que não haverá perigo de derrota para aquele que conhecer o inimigo e a
si próprio, mesmo em cem batalhas.

Até
para aqueles que entendam que a aprovação em concurso depende mais de suor, do
que de filosofia ou estratégia, esses ensinamentos podem ser valiosos, poupando
tempo, dinheiro e energia. Como vimos na evolução da tecnologia da informação e
da administração de projetos, o método ganha importância, à medida que o objeto
a ser alcançado se torna mais complexo, o que, sem dúvida, vem ocorrendo nos concursos.

De
fato, já vai longe o tempo em que um candidato podia conseguir sagrar-se
vencedor em concursos, sem qualquer preparação específica, ou com a simples
leitura rápida de apostilas genéricas. Paradoxalmente, é comum ouvirmos críticas de excelentes profissionais em suas áreas de atuação, por não conseguirem aprovação em concursos para essas mesmas áreas.

Mas não é proveitoso perder tempo reclamando dos concursos, cujo processo e conteúdo certamente ainda têm muito que melhorar. A
preparação do candidato deve ser sistemática, como a estratégia militar para se vencer uma batalha:
pela conquista de um cargo ou emprego público, que será vencida por aquele que
conhecer a si próprio e ao seu inimigo.

CONHECER A SI PRÓPRIO

Quanto
ao primeiro requisito, ele é bem mais amplo e importante do que possa parecer à
primeira vista, envolvendo itens como vigor, disciplina, concentração,
motivação, identificação de pontos fortes e fracos, principais ameaças e
oportunidades… Não, não estou brincando, a elaboração da estratégia para o
projeto visando obter a aprovação em concurso merece análise SWOT, forças de
Porter, etc, para que o candidato perceba o terreno em que pisa e ainda aplique
parte da teoria que é obrigado a estudar para as provas.

No
tocante à motivação, tudo bem se estabilidade e boa remuneração forem
suficientes. Um antigo professor brincava, dizendo que a cura para o cansaço dos
estudos é a consulta à tabela de remuneração do cargo. Mas escolhas de cargos
cujas atribuições vão ao encontro de projetos pessoais e sociais do candidato são
um diferencial importante. Como cidadão, considero lamentável que excelentes
médicos estejam fazendo concursos para carreiras jurídicas, apenas pela
diferença de remuneração, talvez para se tornarem futuros servidores públicos desmotivados.

Isso
se reflete também nas disciplinas das provas para esses cargos, que podem
cobrar conhecimentos que o candidato não tem interesse pessoal em obter. Para
piorar a situação, alguns concursos exigem competências que dificilmente serão
cobradas no cotidiano do profissional após a aprovação, em quantidade e
profundidade tamanha que podem se tornar mais importantes do que as
competências imprescindíveis ao cargo.

Muitos
candidatos desperdiçam oportunidades porque investem nos concursos errados, não
avaliando se estão dispostos a estudar as disciplinas necessárias à sua aprovação.
Matérias como Direito e Contabilidade são frequentes alvos de rejeição por
profissionais da área de exatas, assim como Matemática Financeira e Raciocínio
Lógico são obstáculos para profissionais de ciências humanas.

Vencer
essa rejeição depende de decisão pessoal. Como profissional de exatas, eu
comecei a gostar de estudar Contabilidade, ao menos para concursos, quando
alguém me falou da relação do método das partidas dobradas com os números
relativos da Matemática. É algo simples e que deve ser superado, gerando, além
de melhores resultados, o desenvolvimento de maior respeito em relação às
demais ciências.

Um
ponto de partida interessante na preparação consiste nos simulados prévios. Se o
candidato deseja ser perito criminal federal, deve fazer
uma prova anterior na área escolhida, de preferência a mais atual, para conhecer suas forças e
fraquezas nesse tipo de certame, ANTES de começar a estudar.

É
preciso cuidado também com habilidades acessórias, como a qualidade da letra e
redação do texto, caso haja provas discursivas, e a rapidez para leitura e
compreensão das questões da prova. Não por acaso, comecei minha preparação, para
concursos com provas discursivas, por cursos de leitura dinâmica e de redação,
cada um com cerca de um mês de duração.

Quais
são as disciplinas normalmente exigidas e como você se relaciona com elas? Se o
seu nível não é ótimo, o que pode ser feito e em que prazo? Se gostar de
ferramentas, use algo semelhante a uma matriz GUT, para definir as prioridades de estudo,
lembrando sempre que alguns concursos podem demorar vários anos para serem
realizados de novo, mas não é possível classificar tudo como urgente (o que,
aliás, costuma ser apenas reflexo de falta de planejamento).

Em
geral, o principal objetivo dessas ferramentas é otimizar o uso do escasso
tempo disponível. Por exemplo, mantidas as demais condições, se uma hora a mais
de estudo de Auditoria aumenta em 0,2 a nota final, mas esse mesmo tempo em
Contabilidade cobre matéria para aumentar em 0,3 essa nota, decide-se por esta
última.

Quando
o candidato terá esse nível de precisão sobre o aproveitamento das horas de
estudo? Talvez nunca, mas é perceptível que a confiança nessas decisões aumenta
consideravelmente à medida que aumenta o conhecimento sobre o próprio objeto de
estudo.

Depois
de estudar um pouco, é hora da análise de impacto. Se suas notas não
melhoraram, é mais provável que você esteja estudando errado, do que as provas
terem ficado mais difíceis. Hora de rever a estratégia e/ou a execução,
lembrando que o método bom de estudo é aquele que traz resultado perceptível no tempo esperado.

Além
disso, as medições vão lhe permitir conhecer melhor o que aprende com mais
facilidade e qual o horizonte real de tempo necessário à preparação para o
concurso alvo.

Dependendo
do esforço necessário, talvez você conclua até que está estudando para o
concurso errado. Conheço diversas pessoas, altamente capazes, que ainda estão
tentando conciliar a participação em concursos da área fiscal com a área
jurídica, o que costuma ser bastante complicado, pela diversidade de matérias,
levando até a resultados razoáveis, mas não em nível suficiente para a convocação.


CONHECER O INIMIGO


As dicas anteriores tiveram por objetivo fornecer subsídios para que o
candidato tenha conhecimento de si, bem como das potencialidades com mais
probabilidade de se concretizarem em pontos e aprovação no concurso.

Mas,
como ouvi dizer certa vez um comentarista esportivo, os outros também jogam. O
autoconhecimento pode ajudar muito no atendimento dos critérios para não
eliminação e para maximização das notas das provas dos concursos, mas não
garante a classificação, já que ela depende de variáveis externas.

Entramos
aqui no segundo requisito da vitória do Sun Tzu, o conhecimento do inimigo.

O
primeiro desses inimigos é o edital. É inacreditável o número de pessoas que
vão participar de concursos sem saber do que se trata, com dúvidas infantis
como “é caneta preta ou azul?”, “são quantas horas de prova?”, “vai cair COBIT 4.1 ou 5?”,
“tem que ter graduação em informática?” e outras.

Essa
falha é tão absurda quanto você ir disputar um jogo de um esporte do qual não
conhece as regras. O edital é a primeira disciplina a ser estudada em qualquer
concurso. Entre outras coisas, permite o conhecimento dos requisitos, conteúdo
das provas e prazos, além de tornar possível a impugnação de itens com exigências
não respaldadas pela lei ou pela Constituição.

O
segundo inimigo a ser conhecido é a banca organizadora do concurso. Cada banca
possui um modus operandi que define
várias características das provas e dos conteúdos que costumam ter maior
relevância na pontuação. Tal conhecimento é tão importante que alguns
candidatos não se prendem ao estudo de concurso para um determinado órgão ou
cargo, mas se concentram em fazer provas para uma mesma organizadora.

Embora
considere isso certo exagero, tal exemplo ilustra como esse inimigo costuma dar
trabalho a quem pretende ingressar no serviço público. Há pessoas que se sentem
aterrorizadas pelo estilo de provas do CESPE/UnB, por exemplo, em que as provas
objetivas costumam ter, por critério de correção, a pontuação -1 para itens
errados, +1 para itens certos e zero para itens deixados em branco.

Vou
me desculpar antecipadamente pelo terceiro inimigo a ser citado: o material
didático, em que emergem duas questões importantes. Dependendo da sua interação com o material, ele pode ser inimigo ou um grande amigo.

Primeiro,
há inúmeros candidatos que procuram qualquer apostila na banca de jornal e se
consideram preparados para as provas. Material didático possui requisitos de
qualidade, o que vem melhorando bastante nos últimos anos, com a saída do
material ruim de mercado. Além disso, apostilas são resumos ótimos para revisão
da matéria e complementação de aulas, mas jamais serão substitutos para a
leitura do material completo a que o candidato pode ter acesso, que lhe darão
maior segurança.

Assim,
da mesma forma que a leitura do resumo, por melhor que seja, não dispensa a
leitura da respectiva tese de doutorado, as apostilas escondem complexidades
que, especialmente nos concursos mais disputados, fazem uma grande diferença
entre a não eliminação e a classificação. Não tenha pena de ler.

Se
você tiver tempo para ler as melhores doutrinas de Direito Administrativo e
Direito Constitucional, não perca essa chance e deixe as apostilas para a
revisão ou para as matérias em que não haverá tempo para leituras mais
abrangentes.

Se sabe que os livros do Tanenbaum e do Date são muito importantes para
fazer provas de organização de computadores, sistemas operacionais e bancos de dados, leia-os
todos, não se limite a resumos esparsos.

A
outra questão é o tempo dos exercícios, que precisa ser considerado nos estudos.
Não adianta ler o livro ou apostila e partir para os gabaritos das questões.
Exercícios precisam ser feitos, gerando dúvida que será sanada antes da prova.

Lembre-se: as provas de verdade não vêm com gabarito para consultar. Mais do
que a memória, os concursos procuram testar a capacidade de raciocínio, que é a
que mais deve ser exercitada durante os estudos.

Além
disso, é importante reservar, se o orçamento permitir, algum tempo para
realização de concursos de verdade, com conteúdo próximo ao que você deseja.

Por
exemplo, quando me preparava para o concurso de auditor do TCU, então
organizado pelo CESPE/UnB, elaborei um projeto de cerca de 10 meses, iniciando
com leitura dinâmica e redação e com os simulados prévios, por cerca de 2 meses.
Concluí
que estava bem nas disciplinas de Exatas e Direito, mas precisava estudar muito
as de Contabilidade, Economia e Administração.

Os
4 meses seguintes foram dedicados ao estudo das disciplinas previstas, com
ênfase naquelas em que as notas dos simulados estavam baixas. Além dos livros
básicos que os professores recomendaram, comprei também material complementar
de Direito Administrativo e fitas com os conceitos básicos de Direito
Constitucional.

Nos
4 meses finais, a ênfase foi na intensificação dos estudos pela pressão dos
concursos correlatos, em número de 4: analista do Banco Central, assessor de
orçamento da Câmara dos Deputados, analista do INSS e analista judiciário do
TJ/DFT, este último faltando cerca de 2 semanas para o concurso alvo, por ser também
organizado pelo CESPE/UnB.

Embora
nenhum dos concursos me interessasse naquele momento, os resultados serviram
para validar a estratégia de estudos. No Banco Central, por exemplo, vi que
estava estudando Economia da forma correta, pois acertei 100% das questões cujo
conteúdo já havia sido visto, mas apenas 33% daquelas que ainda estavam por
vir. Na Câmara, havia grande proximidade em conteúdo com as provas do concurso alvo. No INSS e no TJ/DFT, treino de CESPE/UnB.

Por
fim, cabe rápida menção ao quarto inimigo a ser conhecido, os outros candidatos.

Talvez
não pareça justo chamar potenciais futuros colegas de inimigos, assim como não
chamei assim o imenso conteúdo a ser estudado para as provas.

Faço
isso apenas para destacar dois pontos importantes para a sua preparação.

Primeiro,
os candidatos sabem a pedreira que têm pela frente e frequentemente são
extremamente amigos e colaboradores, dando dicas importantes sobre como estudar
e como melhorar o desempenho, exemplos que podem e devem ser imitados, no que
for compatível conosco.

Segundo, é o desempenho dos demais candidatos que
precisa ser superado para a sua classificação. Por isso, é preciso conhecer
esses resultados, pois esse benchmarking
lhe dará parâmetros objetivos a serem alcançados.

No
mais, lembre-se: o candidato que bem planeja pode até perder uma batalha, mas vai
reunindo forças que lhe permitirão ganhar a guerra.

Orlando

Tecnologia da Informação Mestre em Economia pela Universidade de Brasília. Mestrando em Direito pela Universidade Estácio de Sá. Especialista em Auditoria de Tecnologia da Informação pela Universidade Estácio de Sá. Especialista em Gestão de Pessoas e Projetos Sociais pela UNIFEI. Concluinte de Especialização em Govenança e Melhores Práticas em Tecnologia da Informação pelo Instituto Infnet. Bacharel em Informática, Matemática e Direito pela UERJ. Auditor Federal de Controle Externo do TCU e Professor de Matemática da Secretaria de Estado de Educação do Estado do Rio de Janeiro. Aprovação em concursos públicos: Analista Judiciário do TRF-2ª Região (6º lugar, 1994); Analista de Suporte da Petrobrás (4º lugar, 1994); Perito Criminal Federal em Informática (1º lugar, 1995); Analista Judiciário TJ/DFT (2º lugar, 1998); Auditor Federal de Controle Externo - Área Controle Externo do TCU (1º lugar, 1999); Analista de Finanças e Controle da SFC (1º lugar, 2001); Analista da CVM (1º lugar, 2001); Professor da Secretaria de Educação (1º lugar, 2011).